Durante décadas, empresas investiram bilhões de dólares para integrar sistemas, consolidar bases de dados e construir plataformas capazes de oferecer uma visão única do negócio. Para Thiago Oliveira, CIO Global da Coca-Cola FEMSA, esse movimento foi fundamental, mas já não é suficiente para responder aos desafios atuais.
Em sua apresentação durante evento Deloitte Latam ConnecT Mexico 2026, frente a um publico concentrado em CEOs, CIOs e CFOs de grandes corporações latino-americanas, o executivo provocou a audiência ao afirmar que a próxima transformação tecnológica não será impulsionada apenas pelos dados em si, mas pela capacidade das organizações de criar inteligências capazes de aprender, evoluir e agir.
"Passamos anos e milhões de dólares tentando conectar dados. E quando finalmente estamos chegando lá….o mundo mudou novamente", afirmou.
Segundo Oliveira, as empresas passaram boa parte dos últimos anos discutindo Data Lakes, MDMs, pipelines, ETL, governança e integração de dados. No entanto, a simples disponibilidade da informação, por si só, nunca foi suficiente para transformar decisões ou alterar a forma como as organizações operam. "Os dados sozinhos nunca transformaram decisões ou ações", comenta.
Na visão do executivo, a mudança ocorre quando a inteligência gerada através do estudo dos dados deixa de estar presa aos sistemas e passa a ser incorporada aos próprios processos de negócio.
A inteligência artificial como reflexo da evolução humana
Um dos pontos mais originais da apresentação foi a comparação entre a evolução dos agentes de inteligência artificial e o desenvolvimento cognitivo humano.
Oliveira utilizou conceitos da neurociência, como Freud, Piaget e Carl Young para explicar como a construção da inteligência acontece em camadas sucessivas, desde a formação da identidade até a capacidade de tomar decisões complexas.
Segundo ele, a adolescência representa um período particularmente interessante para compreender esse fenômeno. "Segundo grandes pesquisadores de neurociência, como Piaget, Erik Erikson e Carl Young, entre os 12 e os 18 anos o cérebro atravessa sua fase mais rica de reestruturação. O córtex pré-frontal está sendo reconstruído. É ali que a arquitetura do pensamento ganha forma."
Na avaliação do executivo, o mesmo processo pode ser observado na evolução dos agentes. "Deixa eu explicar o que você está olhando neste gráfico de arquitetura da mente, cada fase deste gráfico corresponde a um momento real da sua vida, o momento em que você parou de absorver o mundo e começou a interpretá-lo, o momento em que você deixou de reproduzir padrões e começou a formar julgamentos. O que estou dizendo é que os agentes de IA estão passando pela mesma jornada. Só que em velocidade industrial"
Assim como ocorre com as pessoas, os agentes passam por diferentes estágios de desenvolvimento até adquirirem autonomia. Primeiro surge o modelo fundacional. Depois vêm o conhecimento especializado, o raciocínio, a memória construída a partir das interações e, finalmente, a autonomia.
"Então surge a memória. O agente começa a lembrar, não apenas de dados, mas de relações, de padrões, de histórias. E quando a memória está madura, vem a autonomia, o agente passa a usar ferramentas, planejar sequências complexas de ação e coordenar outros agentes. Ele não espera mais ser chamado. Ele age.", explica.
Oliveira explicou que esta evolução justifica por que os agentes representam algo muito maior do que simples interfaces conversacionais.
O erro de transformar agentes em novos mecanismos de busca
Ao longo da palestra, o executivo fez uma crítica direta à forma como muitas pessoas estão abordando a inteligência artificial. Para ele, boa parte do mercado continua utilizando agentes como mecanismos avançados de busca, desperdiçando seu verdadeiro potencial.
Segundo Oliveira, o papel dos agentes não é apenas recuperar informações, mas coordenar objetivos, manter memória organizacional, adaptar estratégias e ajudar na priorização de decisões. "Os agentes vão nos ajudar a coordenar objetivos, manter memória intelectual, adaptar estratégias e priorizar decisões."
Essa mudança marca a transição de uma IA focada em informação para uma IA focada em execução.
A era da inteligência portátil
Um dos conceitos centrais apresentados pelo CIO foi o de "inteligência portátil". Para ilustrar a ideia, Oliveira utilizou uma analogia com o desenvolvimento humano.
Ele pediu que a audiência imaginasse uma criança que, ao longo da vida, recebe educação, experiências, valores e aprendizado. Quando essa pessoa muda de cidade, não é necessário enviar novamente todos os livros que leu ou todas as experiências que viveu. A inteligência adquirida já está incorporada.
"Uma vez que se aprende o suficiente, leva a inteligência consigo. E não precisa dos dados originais", afirma. Na visão do executivo, esse mesmo princípio começa a ser aplicado às organizações.
Em vez de depender constantemente da consulta a bases de dados, os agentes passam a internalizar padrões, comportamentos, contextos, aprendizados acumulados e reaprendem ao longo do tempo.
"Companhias que liderarem esta nova era não serão as que têm mais dados. Serão as que conseguirem criar e compartilhar inteligência mais rápido."
A escala é o verdadeiro desafio
Para entender um pouco mais sobre a Coca-Cola FEMSA, Oliveira ressaltou que é preciso compreender a dimensão da operação, que tem sobre seu core a manufatura e a distribuição dos produtos, até chegar ao cliente que compra sua Coca-cola nos milhões de pontos de venda.
De acordo com o Informe Integrado 2025 da Coca-cola Femsa (link), a companhia atende aproximadamente 280 milhões de consumidores, opera mais de 2,1 milhões de pontos de venda e conta com uma cadeia de valor que envolve mais de 90 mil pessoas distribuídas em nove países. Somente em 2025, a organização comercializou cerca de 15 bilhões de caixas de produtos.
Segundo o executivo, o desafio não era apenas desenvolver mais um mecanismo com inteligência artificial, mas encontrar uma forma de levar inteligências para uma operação com esta magnitude sem multiplicar sistemas, equipes e modelos para cada mercado.
A resposta encontrada pela companhia foi construir uma arquitetura única.
"Uma única inteligência. Não seis versões. Não nove mercados separados. Uma, que aprende o contexto, adapta o comportamento e opera com a mesma profundidade em cada realidade onde é implantada."", aponta o CIO.
A partir de uma mesma base fundacional, a inteligência recebe camadas adicionais de conhecimento, memória e contexto para se adaptar às necessidades locais.
Segundo Oliveira, cada mercado tem sua lógica, cada cultura, seu comportamento de compra. A vantagem competitiva não está em construir uma inteligência para cada realidade, está em construir uma inteligência capaz de se adaptar a todas elas. A empresa optou por não desenvolver agentes diferentes para cada país.
"A inteligência aprende os padrões de cada cultura e se adapta sem que precisemos construir algo novo para cada mercado", explica.
Essa capacidade de adaptação acontece por meio da aprendizagem contínua baseada nos dados gerados localmente.
"Isso é compartilhar inteligência em escala real e global", afirma o executivo.
De informação para missões
O principal caso de uso apresentado durante a palestra está na força de vendas da companhia, que foi destacado no Informe Integrado 2025 da Coca-cola Femsa (link).
Historicamente, os vendedores recebiam relatórios e informações que precisavam ser interpretados antes da tomada de decisão. Com a nova arquitetura, esse modelo foi substituído por algo muito mais direcionado.
"No momento em que deixamos de entregar informação para a força de vendas e começamos a entregar missões mudou a operação", conta o CIO.
Agora, os vendedores recebem orientações específicas sobre quais estabelecimentos visitar, em que ordem realizar as visitas, quais produtos oferecer e como executar a abordagem comercial.
Segundo Oliveira, todo o trabalho analítico já foi realizado previamente pelas modelagens analíticas e agentes IA. "O vendedor já não recebe um relatório. Ele recebe uma diretiva eficiente de operação diária."
As recomendações são construídas a partir do histórico de compras, padrões de comportamento, gatilhos de consumo, objeções recorrentes, contexto comercial e características específicas de cada cliente.
"O empreendedor antes chegava ao ponto de venda e precisava descobrir o que o cliente necessitava. Agora a inteligência já fez esse trabalho."
Resultados em eficiência, serviço e receita
A plataforma já atende mais de 1,3 milhão de compradores ativos e opera em uma rede com mais de 2,1 milhões de clientes.
Segundo os indicadores apresentados no Informe Integrado 2025 da Coca-cola Femsa (link),, compartilhados por Oliveira, iniciativas de IA elevaram a eficiência operacional para 96,5% no México e 95,6% no Brasil. Ao mesmo tempo, o índice de serviço ao cliente alcançou 93,3%, com avanço de 1,2 ponto percentual em relação ao período anterior.
"Isso não é visão de futuro, são resultados.", afirma.
O próximo diferencial competitivo não será a IA que você tem, será a inteligência que você consegue democratizar, em escala e com impacto na operação.
Ao encerrar sua apresentação, Oliveira reforçou que o maior erro das organizações é acreditar que a adoção de inteligência artificial, por si só, gera valor. "Não se trata de colocar IA em todos os lugares."
Segundo ele, o caminho passa por identificar problemas concretos de negócio, organizar processos e construir casos de uso capazes de gerar impacto mensurável. "Identifique o processo de maior impacto para o negócio, é aí que a primeira inteligência deve ser construída"
Para o executivo, a transformação em curso representa uma mudança histórica e ilimitada. Depois de décadas investindo em dados, as organizações finalmente possuem ferramentas e mecanismos capazes de transformar conhecimento em ação.
"Chegamos ao momento em que é possível fabricar inteligência, treinar, escalar e distribuir, como qualquer outro ativo estratégico do negócio", afirma.
E é justamente essa capacidade que, na visão do CIO, definirá os líderes da próxima geração da economia digital: "Os líderes da próxima economia não serão definidos pelo volume de dados que acumularam, serão definidos pela capacidade de transformar esses dados em inteligência, distribuir essas inteligências em escala e construir organizações que aprendem continuamente com cada decisão, cada interação, cada mercado onde operam".
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há 1 semana
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