Durante a Semana de Produtos 2026, evento interno do Itaú dedicado à evolução das práticas de gestão e desenvolvimento de produtos, Diogo Boechat e Ana Paula Genari, gerentes de Plataforma de Produtos do banco, apresentaram como a inteligência artificial está transformando a forma como os times de produto trabalham, tomam decisões e desenvolvem novas soluções.
Durante apresentação sobre a evolução da estratégia de IA aplicada à produtização, os executivos mostraram como o banco está utilizando inteligência artificial para simplificar processos, reduzir a complexidade operacional e ampliar a capacidade analítica das equipes. No centro dessa transformação está a UPOPS, plataforma desenvolvida para reunir dados, contexto e inteligência em um único ambiente de trabalho.
Segundo eles, a iniciativa representa mais uma etapa na jornada de transformação da organização.
"Passamos por uma transformação digital, passamos por uma transformação de produtação e agora estamos vivendo uma transformação de inteligência artificial", destacou Boechat.
Hoje, o Itaú já contabiliza mais de 760 casos de uso de IA, sendo mais de 150 em produção. Os números, segundo o executivo, crescem rapidamente e já se aproximam da marca de mil iniciativas.
As aplicações vão desde modernização tecnológica até agentes inteligentes capazes de identificar oportunidades de eficiência, reduzir custos operacionais em até 72% e antecipar incidentes antes que eles afetem operações críticas.
Mas o foco da apresentação foi outro: mostrar como a inteligência artificial está sendo incorporada ao próprio processo de desenvolvimento de produtos.
Da teoria à prática: o desafio de operacionalizar a excelência
A origem da UPOPS está diretamente ligada à evolução do Jeito Itaú de Produtar (JIP), iniciativa criada para consolidar práticas, métodos e referências para os profissionais de produto da instituição.
Em um primeiro momento, a equipe estruturou um arcabouço metodológico e o colocou à prova com cerca de 50 squads. Embora o conteúdo tenha sido bem recebido, os feedbacks apontaram um desafio importante.
Os profissionais enxergavam valor no método, mas encontravam dificuldades para incorporá-lo à rotina.
"É super legal, isso aqui me ajuda a produtar no dia a dia, mas é muito difícil operacionalizar", relembrou Boechat ao citar as percepções coletadas junto às equipes.
O diagnóstico revelou uma realidade comum entre os gestores de produto. Muitos utilizavam dezenas de ferramentas simultaneamente, navegando constantemente entre dashboards, sistemas de backlog, plataformas de monitoramento, indicadores de experiência e bases de conhecimento.
Em vez de criar mais um framework, a equipe decidiu atacar o problema pela raiz: simplificar o acesso à informação. A pergunta passou a ser simples. E se todas essas fontes estivessem reunidas em um único ambiente?
Foi dessa reflexão que nasceu a UPOPS.
Uma plataforma construída para reduzir a complexidade
A UPOPS foi concebida como uma camada única de experiência para os times de produto.
Por trás da interface conversacional existe uma arquitetura composta por agentes inteligentes capazes de acessar diferentes bases de dados, APIs, mecanismos de recuperação de conhecimento e sistemas internos para fornecer respostas contextualizadas.
O objetivo, segundo os executivos, não é apenas reunir informações. "Os times não precisam dos dados e das informações. Eles precisam de integração. Precisam de coerência", afirmou Boechat.
A plataforma centraliza informações consideradas essenciais para a maioria dos times, mas também permite que cada área incorpore dados específicos de seus produtos, clientes e indicadores de negócio.
"Além de tudo isso que a gente já traz de forma core, aquilo que é específico para você pode ser incorporado para que você tenha uma experiência personalizada e não precise sair da UPOPS para continuar o seu trabalho", explicou Ana Paula Genari.
A visão de longo prazo é que a ferramenta esteja disponível em diferentes interfaces e acompanhe o profissional onde ele estiver trabalhando, seja no navegador, no celular ou até mesmo em ambientes de desenvolvimento utilizados pelas equipes técnicas.
PMBuddy: um copiloto para a gestão de produtos
O principal agente da plataforma atualmente é o PMBuddy, desenvolvido para atuar como um parceiro digital dos profissionais de produto.
Ele reúne indicadores internos, métricas operacionais, dados de experiência do cliente, informações de mercado e os artefatos metodológicos do JIP para apoiar a tomada de decisão.
A partir de perguntas simples, o agente consegue produzir diagnósticos completos sobre produtos, jornadas e squads.
Um dos exemplos apresentados mostrou um PM solicitando apenas um diagnóstico rápido de sua equipe. Sem necessidade de fornecer contexto adicional, o PMBuddy identificou automaticamente a squad, analisou OKRs, backlog, métricas operacionais, indicadores de satisfação e feedbacks de clientes.
O resultado foi uma avaliação estruturada, destacando pontos fortes, gargalos e oportunidades de melhoria.
"Geralmente as LLMs tentam nos agradar. Mas o PMBuddy não. Ele vai ser crítico. Ele vai mostrar coisas que, às vezes, você não está vendo", destacou Ana Paula.
Em um dos casos apresentados, a ferramenta identificou que os indicadores técnicos da squad estavam saudáveis e que o backlog estava alinhado aos objetivos estratégicos. Ao mesmo tempo, apontou que algumas dores importantes relatadas pelos clientes ainda não estavam sendo tratadas diretamente pelas iniciativas priorizadas.
Colocando a voz do cliente no centro das decisões
Um dos principais benefícios observados pela equipe está na capacidade da plataforma de aproximar os gestores de produto da realidade dos clientes.
Segundo Ana Paula, pesquisas internas mostraram que muitos profissionais não conseguiam dedicar tempo suficiente para analisar reclamações, pesquisas de satisfação ou comentários enviados pelos usuários.
"Não consigo parar para ler as reclamações, não consigo ouvir os meus clientes para realmente direcionar o meu backlog", era uma das respostas recorrentes obtidas durante o diagnóstico.
A UPOPS busca resolver justamente esse problema. Com acesso a bases de NPS, pesquisas de satisfação, reclamações e outros canais de feedback, o PMBuddy consegue consolidar informações, identificar padrões e transformar percepções dos clientes em insumos acionáveis para a evolução dos produtos.
A proposta é permitir que as equipes se tornem mais orientadas ao cliente sem aumentar a carga operacional do dia a dia.
Menos ferramentas, mais contexto
Outro problema atacado pela iniciativa é a fragmentação de ferramentas. Levantamentos internos mostraram que alguns gestores de produto utilizavam mais de 50 aplicações diferentes em sua rotina.
Entre sistemas de monitoramento, plataformas de backlog, dashboards, documentos e ferramentas de pesquisa, grande parte do tempo era consumida apenas localizando informações.
"São mais de 50 ferramentas. É muito alt-tab que a gente precisa dar no nosso dia a dia", observou Ana Paula.
Ao centralizar informações em uma única interface, a UPOPS busca reduzir a carga cognitiva e permitir que os profissionais concentrem esforços naquilo que realmente gera valor: análise, estratégia e tomada de decisão.
Benchmarking, onboarding e geração de artefatos
Os casos de uso observados nos primeiros meses vão muito além dos diagnósticos de produto.
Um dos exemplos apresentados mostrou um profissional utilizando a plataforma para realizar uma análise competitiva sobre mecanismos de autenticação adotados por concorrentes. A ferramenta pesquisou informações públicas, organizou comparativos detalhados entre diferentes instituições e ainda sugeriu um roteiro de avaliação para aprofundar o benchmark.
Segundo os executivos, o diferencial está na continuidade da jornada. Em vez de copiar informações de uma ferramenta para outra, o usuário pode transformar imediatamente aquelas descobertas em hipóteses, funcionalidades, documentos de produto ou iniciativas de roadmap.
Outro caso destacado envolveu o onboarding de um novo PM. Ao assumir uma squad, o profissional utilizou o PMBuddy para compreender rapidamente seus objetivos, indicadores, stakeholders e desafios prioritários. A plataforma organizou um plano estruturado para os primeiros 30 dias, facilitando a adaptação ao novo contexto.
Além disso, a ferramenta também auxilia na criação de artefatos, elaboração de hipóteses e preparação de experimentos, reduzindo o esforço operacional normalmente associado a essas atividades.
Os primeiros resultados da UPOPS
A disponibilização da plataforma para os times ocorreu há apenas 30 dias, mas os indicadores já demonstram uma adoção relevante.
Nesse primeiro mês de operação, mais de 850 usuários já utilizaram a ferramenta e realizaram 4.316 prompts. A solução alcançou 84% das comunidades do banco e já está presente na rotina de 21% dos gerentes de produto, público considerado prioritário para a iniciativa. A taxa de recorrência de uso já se aproxima de 30%, enquanto 61% das RTs e 18% das squads da organização registraram algum tipo de utilização da plataforma.
Para os responsáveis pelo projeto, esses números representam principalmente um indicador de adesão e engajamento. O próximo passo será medir com mais profundidade os impactos gerados na produtividade dos times, na redução de desperdícios e na qualidade das decisões tomadas ao longo do ciclo de desenvolvimento de produtos.
O caminho para uma plataforma verdadeiramente agêntica
Embora os resultados iniciais sejam positivos, os executivos enxergam a UPOPS apenas no início de sua trajetória.
O próximo passo é evoluir de uma ferramenta assistiva para uma plataforma efetivamente agêntica. A ideia é que, além de responder perguntas, os agentes sejam capazes de executar ações.
No futuro, por exemplo, uma oportunidade identificada pela IA poderá ser automaticamente transformada em uma história de backlog ou registrada em ferramentas de gestão utilizadas pelos times.
Outra frente de evolução envolve ampliar o contexto disponível para os agentes. A visão é incorporar automaticamente transcrições de reuniões, entrevistas com clientes e outras fontes de informação que hoje permanecem dispersas.
"Se eu conecto a ferramenta à nossa solução de comunicação interna, eu posso pedir para ela pegar a transcrição da reunião das nove, avaliar os principais insights e sugerir quais histórias precisam ser atualizadas na sprint", exemplificou Boechat.
A ambição também passa por expandir o conceito de "Buddy" para outras disciplinas além de produto. A ideia é criar especialistas digitais capazes de apoiar designers, líderes, gestores e outras funções, compartilhando contexto e ampliando a qualidade das análises realizadas.
IA para ampliar o papel humano
Ao final da apresentação, os executivos abordaram uma preocupação recorrente em discussões sobre inteligência artificial: o risco de transformar profissionais em simples operadores de prompts.
Para eles, o papel da tecnologia deve ser exatamente o contrário. A proposta é liberar as pessoas das tarefas operacionais para que possam dedicar mais tempo ao raciocínio estratégico, à criatividade e à tomada de decisão.
"A IA não faz perguntas ainda. Ela traz as respostas de forma mais rápida. Mas saber o que perguntar, a estratégia e o crivo da decisão seguem na mão da pessoa", afirmou Boechat.
Na avaliação dos executivos, a evolução da inteligência artificial tende a tornar as fronteiras entre disciplinas cada vez menos rígidas, aproximando profissionais de produto, tecnologia e design em torno de uma visão compartilhada de criação de valor. Nesse cenário, a IA surge como um acelerador de conhecimento e execução, mas não substitui a responsabilidade humana sobre as decisões.
Essa visão resume a filosofia por trás da UPOPS. Em vez de substituir especialistas, a inteligência artificial é utilizada para ampliar sua capacidade de gerar valor. Em um cenário cada vez mais complexo e orientado por dados, o diferencial deixa de estar no acesso à informação e passa a estar na capacidade de transformar contexto em decisões melhores, mais rápidas e mais alinhadas às necessidades dos clientes.
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há 2 semanas
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