Apesar de recentes operações relevantes de fusão e aquisição (M&A) no setor de telecomunicações – como a compra da Desktop pela Claro e as consolidações promovidas pela Brasil TecPar –, a conjuntura atual não é das mais favoráveis para negócios no setor de banda larga.
Esta é a avaliação dos analistas de mercado José Valder Nogueira, diretor de investment banking do Santander, e Gustavo Rheingantz, sócio e diretor do banco BR Partners, compartilhada durante o Teletime Tec, evento organizado por TELETIME na quinta-feira, 11, em São Paulo.
Segundo os especialistas em M&A, entre a segunda metade da década passada e o início da pandemia de covid-19, os provedores tinham um cenário propício de crescimento.
As taxas de juros se encontravam em níveis substancialmente mais baixas – entre agosto de 2020 e março de 2021, a Selic estava em 2% ao ano – e ainda havia muito espaço para implantar redes de fibra óptica pelo País, investimento que, em seguida, era acompanhado pela entrada de clientes.
Atualmente, contudo, a avaliação é de que há uma oferta excessiva de serviços de banda larga, o que impede reajustes de preços e a valorização dos ativos de fibra, enquanto os juros estão em patamares que desestimulam negócios no setor produtivo.
Com isso, os provedores já não são mais os principais alvos dos fundos de investimento em infraestrutura.
"Há uma expectativa de valuation que não faz sentido para o momento do mercado", afirmou Nogueira, do Santander. "Os provedores deitaram em berço esplêndido, em uma dinâmica que não existe mais", acrescentou.
Nogueira ainda frisou que, com a taxa de juros a 2%, era possível "fazer um monte de tentativas" no setor. Já nos níveis atuais – desde o fim de abril, a Selic se encontra em 14,5% ao ano –, "não é o mesmo cenário".
Data centers no caminho do dinheiro
Além das questões macroeconômica e competitivas, Rheingantz, do BR Partners, lembrou que, em geral, os fundos que investem em fibra óptica trabalham com outros segmentos de infraestrutura, como torres e data centers. Desse modo, há uma disputa por recursos.
"Hoje, por causa de IA, tem uma demanda muito grande para investir em data centers. Então, os fundos que estavam focados em fibra agora estão mais interessados em data centers, por ser o segmento com maior perspectiva de crescimento", explicou.
De acordo com Rheingantz, fundos de private equity costumam trabalhar com um ciclo de investimento de cinco a dez anos, sob a lógica de direcionar o dinheiro para setores em crescimento. Com isso, o timing da banda larga, em tese, já passou.
"A fibra é fundamental para o desenvolvimento tecnológico, mas, como o setor de data centers tem um crescimento esperado maior, é para lá que o dinheiro vai", disse.
Nogueira corroborou a disputa por recursos entre os setores, acrescentando que tem tido contato com diversos fundos interessados em apoiar o desenvolvimento de data centers.
"O dinheiro é finito. Então, o que antes vinha para construir fibra e rede móvel, agora tem gente que está alocando para comprar terreno eletrificado. A demanda que temos no banco por isso é gigantesca", ressaltou o diretor do Santander.
Cenário pós-reforma tributária
Nogueira também destacou que há potenciais processos de M&A parados porque ISPs ainda não fizeram um levantamento dos impactos da reforma tributária em seus negócios. Segundo ele, quando o novo regime entrar em vigor, o cenário pode piorar para os provedores de banda larga.
"Tem uma espada na cabeça de todo mundo que ninguém está falando: o impacto da reforma tributária ainda não foi precificado. Tem M&A que não está saindo por causa disso", asseverou o diretor do Santander.
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há 2 semanas
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