*Por Eduardo Junqueira
A inteligência artificial já faz parte da rotina das empresas há algum tempo. A constante mudança agora não é sua presença, mas sua capacidade de agir. A ascensão da IA agêntica inaugura uma nova fase da transformação digital: sistemas com capacidade de executar tarefas, navegar entre aplicações, e participar das operações com autonomia, passam a ocupar um espaço que, antes, era reservado exclusivamente à operação humana.
Essa mudança altera a lógica do negócio. Se antes a IA era vista, sobretudo, como apoio à análise, à automação de rotinas e à geração de conteúdo, agora ela começa a intervir diretamente nos fluxos de trabalho. É a partir desse ponto que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser, cada vez mais, estratégica.
A própria trajetória do mercado confirma essa virada. Uma projeção do Gartner, realizada em 2025, indica que, 40% das aplicações empresariais, terão agentes de IA específicos para tarefas até 2026 – um sinal claro de que a tecnologia está deixando o estágio de experimentação para entrar no centro das operações. Ao mesmo tempo, a consultoria alerta que mais de 40% dos projetos de IA agêntica podem ser cancelados até o fim de 2027, principalmente quando faltam base de dados, governança e clareza sobre o valor de negócio. Os dois números, juntos, mostram que a oportunidade é grande, mas a margem para improviso é pequena.
Quem acompanha a evolução tecnológica, sabe que cada virada (como a internet, a nuvem e a IA agêntica) redefine não só as ferramentas, mas também os critérios de gestão e competição. A mudança em curso exige algo novo: entender como liderar em um ambiente no qual a inteligência não apenas sugere caminhos, mas começa a percorrê-los sozinha.
A IA agêntica se desloca da lógica de suporte que, há muito tempo, foi imposta às inteligências artificiais. Agora, ela passa a operar como parte ativa dos fluxos de negócio e isso muda o foco da discussão.
O tema deixa de ser apenas “adoção tecnológica” e passa a ser sobre desenho de operação. Na prática, esse salto já se materializa em áreas como atendimento, marketing, vendas, finanças e operações, onde agentes podem executar tarefas com base em regras, contexto e integração com sistemas corporativos.
Nesses cenários, o ganho potencial é claro: mais velocidade, menos fricção, precisão de respostas e maior capacidade de escala. Porém, a autonomia só faz sentido quando há critério para definir o que pode ser automatizado e o que deve permanecer sob supervisão humana e, para alcançar esse potencial, tudo precisa de uma governança eficiente.
A ascensão da IA agêntica traz uma mudança estrutural para as lideranças. Se antes a preocupação era selecionar ferramentas, agora a questão é governar agentes que tomam iniciativas, acionam sistemas e influenciam resultados com sua autonomia. É uma realidade desafiadora para quem não está preparado. Essa transformação exige uma supervisão mais atenta a limites, responsabilidades e transparência, para evitar cenários conflituosos.
Dado o contexto, entende-se que o risco não está na tecnologia em si, mas na pressa de escalar autonomia sem preparar a base para manter-se alinhado à competitividade do mercado. Afinal, quem iria querer ficar de fora? É necessário que os líderes aprendam, o quanto antes, que sem dados confiáveis, integração consistente, governança ativa e regras claras de uso, a IA pode se transformar em uma vilã, uma vez que é potencializada a ampliar erros ao ser alimentada por uma base desestruturada.
É por isso que a governança deixa de ser uma etapa burocrática e passa a ser parte da estratégia. No ambiente agêntico, quem define os contornos da autonomia define, também, a qualidade da decisão. Nenhum agente funciona bem sobre uma base frágil. A IA agêntica depende de dados organizados, rastreáveis e disponíveis em tempo certo, além de uma arquitetura capaz de sustentar integração entre sistemas e políticas sólidas de segurança.
Sem isso, o que parece avanço rapidamente se transforma em complexidade operacional. Esse é o ponto em que o debate amadurece. Em vez de perguntar apenas qual modelo usar, as empresas precisam questionar qual estrutura de dados têm hoje, quais processos estão prontos para receber agentes e quais atividades pedem intervenção humana. A resposta a essas perguntas vai separar empresas que experimentam, das que realmente transformam a operação.
A IA agêntica inaugura uma nova relação entre pessoas, sistemas e decisão. Nessa nova realidade, as empresas que se moverem primeiro não serão necessariamente as que mais automatizam, mas as que melhor desenharem os critérios da autonomia e se organizarem “dentro de casa”. Esse é o próximo desafio das lideranças: transformar inteligência em execução sem perder controle, contexto, responsabilidade e entender que o futuro da IA não será definido pelo volume de tecnologia adotada, mas pela maturidade com que cada organização decidirá usá-la. *Eduardo Junqueira é diretor de Tecnologia na Dedalus.
Este artigo é de total responsabilidade do autor, não representando, necessariamente, a opinião do Portal IPNews.
Participe das comunidades IPNews no Instagram, Facebook, LinkedIn, X e WhatsApp
.png)
há 2 semanas
32



English (US) ·
Portuguese (BR) ·