A infraestrutura invisível da Copa de 2026

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Copa do Mundo 2026 capa

Quando a bola rolar para a Copa do Mundo 2026, as pessoas acompanharão os jogos pela televisão, streaming, redes sociais e plataformas digitais. Por trás dessa experiência, no entanto, estará uma das maiores operações tecnológicas já montadas para um evento esportivo. Com 48 seleções, 104 partidas distribuídas entre Estados Unidos, Canadá e México e uma audiência global estimada em bilhões de espectadores, a FIFA preparou uma infraestrutura baseada em IA, edge computing, processamento distribuído, monitoramento em tempo real e proteção cibernética para sustentar as transmissões e a operação do torneio.

A tecnologia se tornou um dos pilares estratégicos da competição. Em outubro de 2024, a FIFA anunciou a Lenovo como sua parceira oficial de tecnologia, atribuindo à companhia a responsabilidade de fornecer a infraestrutura de computação, dispositivos, soluções de IA e sistemas de suporte operacional para o torneio. A estrutura tecnológica será utilizada não apenas dentro dos estádios, mas também nos centros de transmissão, nos sistemas de arbitragem, nas operações logísticas e na experiência dos torcedores.

Edge computing ganha protagonismo nas transmissões

Uma das principais apostas para a Copa de 2026 será o uso de edge computing, a fim de aproximar o processamento dos dados de sua origem para reduzir a latência e acelerar tomadas de decisão. Em vez de enviar todas as informações para grandes data centers remotos, parte significativa do processamento ocorrerá dentro dos próprios estádios.

A estratégia aparece de forma clara no Referee View, tecnologia para transmitir aos torcedores a visão do árbitro em campo. O processamento das imagens ocorre localmente na borda da rede, permitindo que algoritmos de estabilização e tratamento de vídeo operem em milissegundos sem depender do tempo de ida e volta até a nuvem.

A arquitetura foi projetada para equilibrar qualidade visual, velocidade de processamento e requisitos de transmissão em tempo real.

O mesmo conceito também está presente nos sistemas de arbitragem. A infraestrutura que sustenta a Hawk-Eye, responsável pelas tecnologias de VAR utilizadas pela FIFA, receberá suporte dos equipamentos da Lenovo. A expectativa é ampliar o uso de recursos como impedimento semiautomatizado (o sistema com dezenas de câmeras nos estádios capta dezenas de pontos do corpo dos jogadores até 50 vezes por segundo; o VAR recebe alertas de áudio automatizados milimétricos em caso de irregularidades), visão computacional e processamento de imagens em tempo real, reduzindo o intervalo entre a identificação de um lance e sua validação pelos árbitros.

Bola conectada

A própria bola oficial da competição também passou a integrar a infraestrutura digital da Copa. Batizada de TRIONDA, ela foi desenvolvida pela Adidas e incorpora um sensor de movimento capaz de registrar dados sobre velocidade, trajetória, rotação e pontos de contato até 500 vezes por segundo. As informações são transmitidas em tempo real para os sistemas de arbitragem assistida por vídeo (VAR) e para as plataformas de análise utilizadas pela FIFA.

O dispositivo é alimentado por uma bateria interna recarregável por indução, com autonomia estimada em até seis horas de operação. Os dados capturados pela bola se somam a todas as informações geradas por câmeras, sensores e plataformas, formando uma das maiores redes de coleta e processamento de dados já utilizadas em uma competição esportiva, segundo a empresa.

TRIONDA (Imagem: Adidas/divulgação)

Para os jogos da Copa, a Lenovo também desenvolveu o FIFA AI Pro, plataforma baseada em IA que será utilizada para análise tática das equipes. A solução processa milhões de pontos de dados relacionados ao desempenho das equipes. O sistema utiliza milhares de métricas e relações construídas a partir da base histórica da FIFA para gerar análises destinadas a treinadores, analistas e federações participantes.

Para Yuanqing Yang, presidente e CEO da Lenovo, o papel da tecnologia vai além da infraestrutura tradicional. “O FIFA AI Pro demonstra um futebol mais inteligente para todos, e a IA tem o poder de fornecer acesso universal às informações”, diz.

Para Gianni Infantino, presidente da FIFA, “a combinação de dados e tecnologia também nos ajuda a conhecer melhor os torcedores, e vamos usar isso para criar experiências inesquecíveis para eles.”

IA passa a comandar operações do torneio

Além das transmissões, a IA também será utilizada na gestão operacional da competição. A FIFA confirmou a implementação em um Centro de Comando Inteligente 360º, responsável por monitorar atividades antes, durante e após cada partida.

A estrutura utilizará algoritmos para consolidar informações de diferentes fontes e apoiar decisões relacionadas a logística, fluxo de pessoas, monitoramento dos estádios e todo o planejamento operacional. Como parte dessa estratégia, a organização também utilizará gêmeos digitais para reproduzir virtualmente ambientes físicos e acompanhar, em tempo real, situações dentro e ao redor das arenas.

Segundo Nacho Fresco, diretor de tecnologia da FIFA, a dimensão da competição exige um novo nível de automação e monitoramento. “Como esta edição promete ser a maior da história, é fundamental oferecer uma eficiência operacional excepcional e tecnologia de ponta”, avalia o executivo.

O desafio de transmitir para bilhões de pessoas

O coração tecnológico da Copa estará no International Broadcast Center (IBC), instalado em Dallas, nos Estados Unidos. Com 45 mil metros quadrados de área operacional, o complexo funcionará como o principal centro global de distribuição de conteúdo da competição, conectando aproximadamente 180 emissoras responsáveis por levar os 104 jogos do torneio para bilhões de espectadores.

A estrutura abriga cerca de 2 mil profissionais de mídia, o centro de operações da Host Broadcast Services (HBS), a sala central do VAR, equipes de produção da FIFA e departamentos de inovação tecnológica. Segundo a entidade, mais de 143 quilômetros de cabos de transmissão percorrem o local, com servidores processando grandes volumes de vídeos ao vivo, alimentam a rede IPTV da competição e distribuem sinais para mais de 1.000 telas espalhadas pelos estádios e instalações oficiais.

International Broadcast CenterInternational Broadcast Center (IBC) (Imagem: Sam Hodde/Getty Images)

A infraestrutura operará ininterruptamente durante o Mundial como um “data center de mídia temporário” e concentra recursos de IA, produção remota, análise de vídeo e distribuição global de conteúdo, funcionando como o cérebro das transmissões da Copa.

Cibersegurança na lista de prioridades

Se a infraestrutura tecnológica cresce, a superfície de ataque também aumenta. A Copa do Mundo de 2026 já desperta atenção das autoridades responsáveis pela segurança digital.

Embora a FIFA não tenha divulgado um fornecedor único responsável pela cibersegurança do evento, empresas especializadas e órgãos governamentais já monitoram uma onda crescente de ameaças associadas ao torneio. A Group-IB identificou mais de 4.300 domínios fraudulentos relacionados à competição, enquanto o FBI emitiu alertas oficiais sobre sites falsos utilizados para roubo de credenciais, dados financeiros e venda de ingressos inexistentes.

Um estudo da Proofpoint apontou ainda que 36% dos patrocinadores, fornecedores e parceiros oficiais da Copa não possuíam mecanismos adequados de proteção contra falsificação de e-mails, evidenciando os desafios de proteger uma cadeia global que envolve emissoras, plataformas digitais, patrocinadores, operadores de telecomunicações e fornecedores de tecnologia.

Esse cenário preocupa a organização e a proteção dessas estruturas se tornou uma das prioridades, especialmente diante da crescente utilização de IA para criação de campanhas de phishing, engenharia social e fraudes digitais.

Além da proteção das transmissões e dos sistemas operacionais, a segurança cibernética também será fundamental para resguardar dados de torcedores, credenciais de acesso, sistemas de acreditação, plataformas digitais e aplicações utilizadas pelas equipes envolvidas no torneio.

E o Brasil?

No Brasil, a transformação também chega às emissoras. A Globo anunciou uma operação que envolverá mais de 500 profissionais, cerca de 1.000 horas de transmissão ao vivo e investimentos em baixa latência para o Globoplay. A empresa também utilizará um estúdio especial baseado em realidade aumentada, IA e painéis de alta definição, além de transmitir todas as partidas do Sportv em resolução 4K a 60 quadros por segundo.

A CazéTV representa outro movimento tecnológico da Copa de 2026: a consolidação das plataformas digitais como infraestrutura principal de distribuição esportiva de massa. Pela primeira vez, uma Copa terá no Brasil todos os seus jogos disponíveis gratuitamente via streaming em uma plataforma nativa da internet, sustentada pela infraestrutura global do YouTube e pelo modelo operacional da LiveMode.

Executivos da CazéTV afirmaram que a cobertura foi estruturada sobre um modelo de distribuição em larga escala, combinando transmissão ao vivo, produção digital, creators e forte integração com o ecossistema do YouTube, que fornece monetização e capacidade de distribuição para milhões de espectadores simultâneos. “A parceria com YouTube é fundamental ao oferecer sustentação de distribuição e escala”, comenta Felipe Tebet, head de conteúdo da CazéTV.

A estratégia reforça uma mudança no mercado de mídia esportiva, em que parte relevante da audiência passa a ser atendida por plataformas digitais apoiadas em redes globais de entrega de conteúdo (CDNs), computação em nuvem e tecnologias de streaming de baixa latência, reduzindo a dependência exclusiva da infraestrutura tradicional de radiodifusão.

Outro destaque será a DTV+, conhecida como TV 3.0, que começa a ser transmitida pela Globo em algumas capitais brasileiras (Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro) durante o torneio. A tecnologia permitirá incorporar recursos digitais e experiências interativas diretamente na televisão aberta para usuários com equipamentos compatíveis.

Para o torcedor, a maior parte dessa operação permanecerá invisível. Mas será justamente essa camada tecnológica que permitirá acompanhar jogos em tempo real, alta resolução, acessar estatísticas, assistir a conteúdos personalizados e interagir por diferentes plataformas.