A jabuticaba dos dados: muito acesso, pouca decisão

há 2 horas 2

As iniciativas de data literacy, ou alfabetização de dados, ganharam protagonismo nas organizações nos últimos anos. Programas de capacitação, academias internas e investimentos em ferramentas analíticas passaram a integrar a agenda de transformação orientada a dados. O cenário parece favorável. Nunca houve tanto acesso a dados, nem tantas pessoas com algum nível de formação para utilizá-los. Ainda assim, a qualidade das decisões não evoluiu na mesma proporção.

Esse descompasso revela um ponto crítico ainda pouco explorado nas estratégias de dados: a capacidade de comunicar dados de forma eficaz, associada à compreensão de sua qualidade e à clareza sobre as responsabilidades em sua gestão.

Grande parte dessas iniciativas ainda se apoia em três dimensões: domínio de ferramentas, compreensão de conceitos e navegação em dados. São dimensões importantes, mas insuficientes. A ênfase no uso de ferramentas, especialmente na construção de dashboards, reforçou a expectativa de que ampliar o acesso à informação seria suficiente para melhorar decisões. Na prática, observa-se a multiplicação de artefatos analíticos, muitas vezes sem critérios consistentes de padronização, governança ou alinhamento com as necessidades decisórias do negócio. O resultado é um ambiente rico em informação, mas limitado em direcionamento.

Em muitas organizações, ainda predomina a ideia de que disponibilizar dados gera valor. Contudo, os dados passam a ter utilidade quando são interpretados em contexto, analisados de forma crítica e utilizados para orientar decisões concretas. Sem esse encadeamento, são apenas informações disponíveis, porém com benefícios muito restritos.

Outro ponto frequentemente subestimado é a governança e a qualidade dos dados. A leitura de um indicador sem entendimento de sua origem, regras de cálculo ou nível de confiabilidade introduz riscos relevantes. Decisões passam a se apoiar em informações inconsistentes ou mal compreendidas, com efeitos diretos sobre o negócio, muitas vezes sem que esses riscos sejam percebidos.

Esse cenário se agrava quando não há clareza sobre responsabilidades. A gestão de dados é compartilhada ao longo do seu ciclo de vida. Quem gera dados influencia sua qualidade na origem. Quem transforma dados deve garantir consistência. Quem consome dados precisa exercer senso crítico. Sem essa definição, a confiança nas informações se reduz e o uso de dados tende a diminuir, ou, pior, passa a ocorrer de forma crítica.

Há ainda um aspecto pouco tratado nas iniciativas de data literacy: a diferenciação de públicos. Nem todos os profissionais têm o mesmo papel no uso de dados, tampouco demandam o mesmo nível de aculturamento. Além de um diagnóstico geral do público-alvo, é fundamental identificar os profissionais-chave nos processos decisórios e avaliar individualmente seu nível de maturidade no uso de dados.

Esse direcionamento permite maior efetividade. Profissionais com papel decisório precisam desenvolver capacidade de interpretação, leitura de contexto e comunicação orientada à ação. Sem esse aprofundamento, iniciativas de capacitação tendem a ter alcance amplo, mas impacto limitado nas decisões mais relevantes.

A comunicação de dados permanece como uma das capacidades menos desenvolvidas nas organizações. Muitas vezes é associada apenas a aspectos visuais ou à simplificação da informação. Na prática, comunicar dados envolve explicitar o que é relevante, conectar análises ao contexto do negócio e evidenciar implicações para a tomada de decisão, transformando informação em direcionamento claro.

Um exemplo simples ilustra essa diferença. Um dashboard pode indicar queda de receita em determinada região. A informação descreve um fato. A comunicação adequada aprofunda a análise ao identificar causas prováveis, relacionar o comportamento observado a fatores operacionais ou de mercado e indicar possíveis ações. Nesse movimento, o dado passa a orientar decisões de forma objetiva.

A combinação desses fatores explica um paradoxo recorrente. As organizações investem em tecnologia, estruturam dados e ampliam o acesso à informação, mas continuam com dificuldade para decidir com base em evidências. Essa situação está associada à dificuldade de atribuir significado aos dados, à fragilidade na confiança sobre sua qualidade e à limitação na capacidade de comunicação.

O avanço na maturidade analítica requer o reposicionamento de alguns elementos. A comunicação de dados precisa ser tratada como capacidade central, conectando análises a decisões. A responsabilidade pela gestão e qualidade dos dados precisa ser compreendida como compartilhada entre áreas , e não restrita às equipes de tecnologia ou dados.

Isso exige ajustes nas iniciativas de capacitação. O desenvolvimento técnico deve ser acompanhado pelo fortalecimento de competências relacionadas à interpretação, ao contexto e à tomada de decisão, além da incorporação de fundamentos de governança e qualidade desde as etapas iniciais e não como uma camada posterior.

A evolução das iniciativas de dados está diretamente associada à capacidade de transformar dados em decisões consistentes, baseadas em informações confiáveis e compreendidas. Essa diferença separa organizações que apenas acessam dados daquelas que conseguem, de fato, utilizá-los para gerar resultados.

Se a jabuticaba é símbolo de algo singularmente brasileiro, talvez o atual estágio da data literacy nas empresas também seja. Construímos ecossistemas ricos em dados, mas ainda limitados em transformar informação em decisão consistente, algo que está intrinsecamente ligado à qualificação profissional. O próximo salto de maturidade não virá de mais dashboards ou mais acesso, mas da capacidade de conectar qualidade, responsabilidade e comunicação. Sem isso, continuaremos cercados por dados e carentes de direção.

Bergson Lopes, fundador e sócio-diretor da BLR DATA, vice-presidente da DAMA Brasil, especialista em Gestão e Governança de Dados e autor de dois livros sobre o tema.