A transformação não desacelera e a liderança precisa acompanhar

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A velocidade das transformações que vivemos costuma ser considerada como algo excepcional. Contudo, na prática, o que presenciamos é uma alteração mais profunda: a aceleração não é um momento específico – passou a ser uma condição permanente do ambiente de negócios.

Tecnologias que há poucos anos eram vistas como experimentais hoje operam no centro das decisões corporativas. A inteligência artificial (IA) é o exemplo mais concreto desse movimento, tanto por sua capacidade técnica como pelo impacto direto na forma como trabalhamos, decidimos e organizamos as empresas.

Segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, 44% das competências exigidas no mercado devem mudar nos próximos cinco anos, impulsionadas pela digitalização e pelo progresso tecnológico. Estamos falando de um dado que não aponta exclusivamente para uma evolução, como também evidencia uma reconfiguração regular das estruturas de trabalho.

Esse panorama cria uma tensão importante. Quanto mais expandimos em tecnologia, maior se torna a responsabilidade de quem comanda. Não porque os líderes precisam dominar todas as ferramentas, mas pelo fato de que são eles que definem como essas capacidades serão aplicadas dentro das organizações.

Durante muito tempo, gerir esteve associado à experiência acumulada e à capacidade de discernir com base em repertório. Atualmente, a informação é abundante, os dados são acessíveis e as ferramentas conseguem analisar cenários com uma velocidade impensável. Ainda assim, isso não reduz o papel da liderança, pelo contrário: amplia a sua complexidade.

A tecnologia executa com eficiência, porém não estabelece prioridades. Processa informações sem construir contexto. E, principalmente, não gera confiança – elemento que segue sendo central para qualquer organização que busca consistência em suas diretrizes.

É um ponto que fica ainda mais nítido com o avanço da IA no cotidiano das empresas. Um estudo global da Workday, intitulado "AI Agents Are Here – But Don't Call Them Boss", mostra que 75% dos profissionais estão dispostos a colaborar com a IA, ao passo que apenas 30% se sentem confortáveis sendo liderados por ela.

Esses percentuais revelam um limite claro. A tecnologia pode revolucionar processos, embora a legitimidade das escolhas permaneça genuinamente humana. No fim do dia, as empresas agem com eficiência e, acima de tudo, confiança construída por pessoas.

Ao longo dos últimos anos, acompanhando diferentes ciclos de transformação, um padrão se repete. As tecnologias escalam rapidamente, entretanto, a forma como as organizações absorvem essas disrupções prossegue sendo o fator preponderante que determina o sucesso ou o fracasso dessas iniciativas.

Isso ocorre porque a transformação não se resume à adoção tecnológica. Trata-se de uma integração. E integrar requer clareza, direcionamento e, sobretudo, capacidade de adaptação contínua – algo que não se resolve somente com ferramentas.

Liderar transcende conduzir intervenções pontuais e significa suportar organizações em um estado permanente de crescimento. Não é sobre reagir a tendências. Antes, de estruturar ambientes onde aprendizado e ajuste façam parte da operação.

Talvez esse seja o ajuste mais estratégico: a transformação se apresenta agora como uma lógica contínua, e não mais como um movimento pontual. Nessa dinâmica, a liderança necessita se posicionar, abandonando estruturas rígidas e atuando com maior capacidade de adaptação.

Em essência, o diferencial competitivo não estará unicamente na tecnologia implementada, até porque ela tende a ser cada vez mais acessível. Estará na capacidade de utilizá-la com consistência, clareza e responsabilidade no decorrer do tempo.

Porque, em um ambiente que não desacelera, liderar não é mais sobre coordenar uma mudança específica. É sobre sustentar a organização dentro dela.

Vinicius Galera, vice-presidente global de IA na FCamara.