Além do buzzword AI First

há 3 horas 1

Contei para vocês neste artigo que, recentemente, estive no Vale do Silício, visitando empresas pioneiras e imerso nas discussões mais avançadas sobre o futuro da tecnologia. Caminhando por lá, foi impossível não ser impactado pelo argumento de venda de dez entre dez companhias – de startups de garagem a gigantes globais. Basicamente, ele se resume a duas palavras: AI First. A Inteligência Artificial está no centro de todos os discursos, nos pitches de investidores e, literalmente, espalhada em outdoors pelas rodovias de São Francisco.

Essa onipresença me trouxe uma forte sensação de déjà vu. Lembra muito a onda do Mobile First de anos atrás, quando ter um aplicativo ou desenhar uma estratégia voltada prioritariamente para os smartphones era o divisor de águas entre a relevância e a obsolescência de um negócio. Recordam-se? E, de fato, a IA está redesenhando processos, produtos e modelos de operação em uma velocidade nunca antes vista. Não há o que negar nesse ponto.

No entanto, ao observar esse ecossistema hiper tecnológico, ficou claro para mim que colocar a tecnologia de forma isolada no topo da estratégia é olhar apenas para metade do tabuleiro. Embora o mercado esteja correndo para se autodenominar AI First, nós precisamos desenhar outra abordagem. Temos que trazer um toque de realidade ao pragmatismo dos negócios, se quisermos construir empresas capazes de navegar em cenários cada vez mais voláteis e complexos.

Desembarquei em São Paulo decidido a dar um passo além. No dia seguinte lancei na Vockan nossa nova diretriz: o AI & People First.

O verdadeiro multiplicador

A grande armadilha do discurso AI First é a ideia velada (e, às vezes, explícita) de que a tecnologia vem para substituir o fator humano. Na nossa visão, a IA não substitui pessoas; ela as potencializa. A verdadeira transformação não acontece na linha de código isolada, mas sim no ponto de intersecção no qual combinamos a capacidade computacional com o conhecimento prático, a criatividade, a experiência empírica e o propósito humano.

Por isso, equivaler à importância – de maneira semântica e real – do desenvolvimento de pessoas com o avanço da tecnologia é criar diferencial competitivo para o mercado e desenhar uma companhia que opera, desenvolve e inova a inteligência artificial por meio de seus talentos. O momento que vivemos exige governança e intencionalidade para reduzirmos fricção e desperdício de energia.

Assim, para que essa visão se transforme em valor real, e não apenas em um manifesto bonito, iniciamos uma jornada estruturada dentro da nossa própria casa. Provocamos cada colaborador e cada área de negócios a olhar para a IA por meio de prismas muito claros e objetivos:

  • Produtividade e Qualidade: Como a ferramenta pode mitigar tarefas repetitivas e elevar o nível técnico e a precisão das nossas entregas?
  • Experiência do Cliente: De que forma a tecnologia antecipa dores e refina a jornada de quem confia na nossa empresa?
  • Novas Receitas e Eficiência: Onde estão as oportunidades de novos modelos de negócios escaláveis apoiados por dados?

A estrutura por trás da inovação

Para que a estratégia AI & People First prospere, toda ideia precisa passar por um crivo rigoroso de viabilidade e impacto. Projetos de IA robustos exigem uma análise profunda de governança e qualidade de dados, a escolha precisa dos modelos recomendados para cada caso de uso e o entendimento claro da infraestrutura necessária. Mais do que isso, demandam avaliar as competências humanas envolvidas e o potencial real de adoção pelas equipes. Se a ponta final não engajar, a inovação morre.

O futuro será construído pela combinação do que temos de melhor: pessoas extraordinárias apoiadas por uma tecnologia exponencial. A era da inteligência artificial já começou, mas o seu sucesso continuará sendo mensurado pela capacidade humana de guiá-la. É esse o futuro que estamos construindo.

Fabrício Oliveira, CEO da Vockan.