Carreiras digitais entram em nova fase: adaptabilidade, aprendizado contínuo e visão estratégica ganham protagonismo na era da IA

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A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa para se tornar um elemento central na transformação das carreiras digitais. Mais do que automatizar tarefas ou acelerar entregas, a tecnologia está remodelando a forma como profissionais de produto, tecnologia, design e gestão de pessoas trabalham, aprendem e evoluem dentro das organizações.

Essa foi a principal conclusão do painel realizado durante a Semana de Produtos Itaú 2026, que reuniu Breno Leite, gerente do Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTI), Carla Oliveira, GPM de Produtos Digitais, e Camila Carvalho, especialista de Carreiras Digitais, em uma conversa mediada por Amandha Cortes, superintendente de Pessoas do Itaú. O debate explorou os impactos da IA nas habilidades profissionais, os novos formatos de trabalho e as competências que devem ganhar relevância nos próximos anos.

Ao longo da discussão, um consenso emergiu entre os participantes: o futuro das carreiras digitais já começou – e exige uma capacidade de adaptação sem precedentes.

Da velocidade à experimentação: a nova forma de construir produtos

Para Breno, uma das mudanças mais significativas provocadas pela IA está na velocidade com que novas ideias podem ser testadas e validadas.

Segundo ele, a redução das barreiras para experimentação alterou profundamente a dinâmica de desenvolvimento de produtos e soluções tecnológicas. "Hoje conseguimos testar coisas muito mais rápido do que antes. Muitas vezes geramos dez versões diferentes, escolhemos as três melhores e seguimos evoluindo a partir delas. Isso mudou completamente a forma de fazer produto", explicou.

No ambiente do ICTI, onde grande parte do trabalho envolve pesquisa e construção de hipóteses sobre cenários futuros, a capacidade de testar rapidamente diferentes caminhos tornou-se uma vantagem competitiva. A lógica tradicional de planejamento extensivo cede espaço para ciclos contínuos de aprendizado, validação e adaptação.

"Estamos iterando o tempo inteiro. Saiu daquela lógica de pensar um produto do começo ao fim para uma lógica muito mais evolutiva", afirmou.

O fim das fronteiras rígidas entre especialidades

Se a velocidade foi apontada como um dos grandes impactos da IA, Carla destacou outro movimento igualmente relevante: a redução das barreiras entre especialidades.

Historicamente, profissionais de produto, design e tecnologia operavam com conjuntos de competências mais delimitados. Agora, ferramentas baseadas em inteligência artificial permitem que esses limites se tornem mais flexíveis. Segundo ela, as organizações começam a valorizar profissionais com conhecimento mais ambidestro, capazes de transitar por diferentes disciplinas sem perder a profundidade em suas áreas de atuação.

"Estamos vendo colaboradores com um conhecimento mais ambidestro. As pessoas continuam tendo sua especialidade principal, mas conseguem navegar melhor entre outras disciplinas e contribuir de forma mais ampla para o produto", explica.

Para a executiva, esse movimento fortalece a colaboração multidisciplinar e cria condições para que as equipes atuem com uma visão mais integrada dos desafios de negócio. A transformação, porém, não significa a perda da especialização. O que emerge é um profissional capaz de aprofundar seu domínio principal enquanto desenvolve repertório suficiente para dialogar com outras áreas e aproveitar o potencial das novas ferramentas.

As tendências deixaram de ser tendências

Na visão de Camila, que atua diretamente na gestão de carreiras e habilidades digitais, o principal impacto da IA está na velocidade com que mudanças antes consideradas futuras passaram a fazer parte da realidade cotidiana.

"Tudo aquilo que a gente enxergava como tendência e se preparava para algum dia, chegou. Habilidades que imaginávamos que seriam importantes no futuro já são o principal assunto das organizações hoje", afirma.

Ela observa que a transformação não ocorre apenas nas atividades individuais, mas também na forma como as estruturas organizacionais serão desenhadas daqui para frente. "Não é só o trabalho que muda. Em algum momento as próprias estruturas serão impactadas. O desafio é navegar no presente enquanto nos preparamos para algo que continua evoluindo todos os dias."

As habilidades que passam a definir a carreira

Ao discutir quais competências se tornam mais importantes nesse novo cenário, os participantes reforçaram que a combinação entre conhecimentos técnicos e habilidades humanas será decisiva.

Camila explicou que os mapas de habilidades utilizados pelo banco vêm sendo constantemente revisados para incorporar as mudanças trazidas pela inteligência artificial. Atualmente, o modelo contempla competências relacionadas à estratégia, negócios, produtos, tecnologia, dados e capacidades comportamentais.

Segundo ela, ganham destaque conhecimentos ligados ao letramento em IA, análise de dados e gestão de produtos, ao mesmo tempo em que habilidades humanas tornam-se ainda mais valiosas. Pensamento crítico, pensamento analítico, visão estratégica, criatividade, curiosidade e aprendizagem contínua aparecem entre os atributos mais relevantes para navegar em um ambiente de transformação permanente.

Ela também chamou atenção para aquilo que definiu como capacidades adaptativas. "Precisamos fazer um exercício constante de entender quais habilidades já dominamos e quais precisam ser desenvolvidas. A IA pode, inclusive, ser uma parceira nesse processo de aprendizagem."

Carla reforçou a ideia ao afirmar que, quanto mais rápido se torna construir soluções, mais importante passa a ser a definição correta dos problemas a serem resolvidos. "Se ficou mais fácil criar qualquer coisa, a etapa de entender para onde estamos indo e qual problema queremos resolver se torna ainda mais relevante."

Aprender a aprender: a habilidade mais valiosa da década

Um dos conceitos mais explorados durante o painel foi o de "aprender a aprender", prática amplamente utilizada dentro do ICTI.

Para Breno, essa talvez seja a competência mais importante em um contexto em que tecnologias, ferramentas e modelos mudam constantemente. "Se existe uma coisa que sabemos sobre amanhã é que vai surgir alguma novidade."

Segundo ele, o aprendizado contínuo depende da capacidade de se cercar de pessoas que estimulem novos conhecimentos, manter contato com diferentes fontes de pesquisa e inovação e, principalmente, experimentar. O executivo destacou que o ICTI mantém relacionamento próximo com universidades brasileiras e internacionais justamente para ampliar essa capacidade de aprendizado permanente.

"Criamos hipóteses, testamos rapidamente e ajustamos a rota. A resposta para um mundo que muda tão rápido é desenvolver mecanismos que nos permitam mudar junto", completa.

Surge um novo perfil profissional?

Uma das perguntas levantadas pelo público foi se a ascensão da IA dará origem a um novo perfil profissional. A avaliação dos participantes foi de que as profissões não desaparecem, mas passam por um processo de remodelagem.

Camila destacou que as equipes já começam a incorporar agentes de IA como parte do fluxo de trabalho. "Estamos vendo times onde agentes passam a atuar quase como membros da equipe. Isso muda as habilidades necessárias dos profissionais que irão orquestrar essas interações."

Ela acredita que ainda é cedo para definir exatamente quais funções surgirão, mas vê o fortalecimento de perfis mais versáteis. "Continuamos precisando de especialistas, mas especialistas com uma visão ampliada",completa.

Breno associou esse movimento ao conceito de carreira em T, no qual profissionais desenvolvem profundo domínio em uma área específica, mas conseguem transitar por outras disciplinas. Segundo ele, a IA está reduzindo barreiras que antes separavam as especialidades.

"Hoje uma pessoa sem formação técnica consegue construir um protótipo funcional. E alguém da tecnologia consegue explorar melhor temas de negócio", explica.

Habilidades humanas ganham ainda mais relevância

Quando questionados sobre o peso das chamadas soft skills na era da IA, os três participantes concordaram que essas competências se tornam ainda mais importantes.

Camila observou que o próprio conceito de soft skills começa a ser substituído por uma visão mais ampla de habilidades humanas. "Estamos praticamente declarando que são aquelas capacidades que a IA não consegue reproduzir."

Ela relaciona esse fenômeno à velocidade da transformação atual. Se na era da digitalização as mudanças ocorreram ao longo de anos, agora tudo acontece simultaneamente. "O comportamento dos clientes está mudando, o nosso também e as estruturas das empresas também. Por isso a dimensão humana se torna ainda mais importante", comenta.

Carla, porém, fez um alerta importante. Apesar da valorização das habilidades humanas, o conhecimento técnico continua sendo indispensável. "A IA funciona a partir dos nossos inputs. Precisamos ter repertório para fazer as perguntas certas e para validar as respostas que recebemos."

Segundo ela, visão de produto, entendimento de negócio, conhecimento tecnológico e fundamentos de design permanecem essenciais para que os profissionais consigam avaliar criticamente as recomendações e soluções geradas pelas ferramentas.

A prática supera a teoria

Ao compartilhar experiências pessoais, os participantes convergiram em um mesmo conselho: aprender exige prática.

Breno contou que passou a utilizar a IA como primeiro ponto de consulta para praticamente qualquer tema novo. "Nos últimos meses, dificilmente comecei um assunto sem conversar antes com uma IA para entender o contexto."

Carla destacou a importância das trocas entre colegas e da experimentação constante. "Não adianta só fazer cursos. É preciso testar, construir e colocar em prática."

Já Camila relembrou sua própria trajetória profissional, iniciada há 15 anos na área de tecnologia, trabalhando com sistemas em COBOL, até sua migração para a área de pessoas. Para ela, o desenvolvimento profissional deixou de ser uma jornada linear e passou a exigir constante recalibração de conhecimentos e habilidades.

"Hoje eu uso a IA tanto para potencializar coisas que já sei fazer quanto para aprender aquilo que ainda não domino". Ela também ressaltou a importância de reduzir a ansiedade diante das transformações e reforçou o valor da colaboração.

"Todo mundo está aprendendo. O mais importante é pedir ajuda, compartilhar conhecimento e evoluir junto", afirma.

O aprendizado coletivo como diferencial competitivo

Encerrando o painel, Amandha destacou que, em um cenário de mudanças aceleradas, o aprendizado coletivo tende a ser um dos principais diferenciais das organizações.

A conclusão sintetizou o espírito da conversa: mais do que dominar ferramentas específicas, os profissionais precisarão desenvolver a capacidade de aprender continuamente, colaborar de forma multidisciplinar e combinar repertório técnico com competências humanas.

Em um mundo cada vez mais impulsionado por inteligência artificial, a vantagem competitiva não estará apenas em conhecer a tecnologia, mas em saber evoluir junto com ela.