Da expectativa ao resultado: empresas começam a trocar corrida por IA por projetos com retorno mensurável

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9 June 2026; Milena Leal, Country Manager Brazil, Google Cloud; Graciela Kumruian, CEO, Netshoes.com; Luciana Magalh?es, Corporate Reporter, Reuters, on Centre Stage during day one of Web Summit Rio 2026 at Riocentro in Rio de Janeiro, Brazil. Photo by Oisin McHugh/Web Summit via Sportsfile

Por muito tempo, a inteligência artificial foi apresentada como uma corrida de adoção. Quem implementasse primeiro ganharia vantagem competitiva. Mas à medida que os projetos começam a sair do laboratório e entrar no centro da operação, uma nova pergunta aparece nas empresas: como transformar uso em resultado sem criar custos, riscos ou complexidade adicionais.

Esse foi o tom do painel "The next leap: From hype to results", realizado no segundo dia do Web Summit Rio 2026. Mediado por Luciana Magalhães, repórter da Reuters, o debate reuniu Milena Leal, Country Manager do Google Cloud Brasil, e Graciela Kumruian, CEO da Netshoes, para discutir como companhias começam a transformar inteligência artificial em escala operacional.

Logo na abertura, um dado ajudou a contextualizar a discussão: a expectativa é que o mercado de IA no Brasil salte de US$ 18 bilhões em 2025 para quase US$ 100 bilhões até 2033, crescimento de aproximadamente 8,5 vezes em oito anos.

Mas, para as executivas, crescimento de mercado não significa que qualquer implementação gere resultado.

IA saiu do campo experimental e entrou na operação

Ao comentar os usos mais concretos da tecnologia, Milena destacou que a conversa dentro das empresas deixou de ser sobre testes e passou a girar em torno de eficiência operacional e impacto financeiro.

Segundo ela, organizações já utilizam modelos para transformar jornadas de clientes, construir experiências conversacionais, ampliar personalização e apoiar decisões internas.

"Hoje as pessoas perguntam menos se a IA gera valor e mais como gerar dinheiro ou eficiência operacional com ela", afirmou.

Na visão da executiva, a tecnologia amplia capacidade analítica e operacional dos profissionais.

"A IA traz essa facilidade de nos tornar mais poderosos", afirmou.

Na prática, isso inclui desde previsões operacionais e análise de desempenho até construção de agentes especializados para suportar atividades corporativas.

Netshoes transforma jornada em tempo real

Do lado da aplicação prática, Graciela apresentou como a Netshoes vem incorporando inteligência artificial ao longo da jornada digital dos consumidores.

Segundo ela, o varejo já ultrapassou a fase experimental.

"A IA deixou de ser ruído. Ela veio para ficar", afirmou.

Hoje a empresa utiliza modelos em diferentes etapas da operação — desde apoio aos times de tecnologia com uso de LLMs em desenvolvimento e testes até mecanismos de personalização de navegação e recomendação.

Segundo a executiva, clientes diferentes passam a enxergar experiências diferentes conforme comportamento, histórico e contexto.

"Quem entra pela primeira vez terá uma navegação. Conforme entendemos o comportamento, a jornada passa a ser personalizada", afirmou.

Para ela, o ganho não está apenas em automação.

O impacto aparece em qualidade, assertividade, escala e eficiência.

Governança deixa de ser área de suporte e entra no desenho do produto

Se o primeiro ciclo da IA foi marcado pela experimentação, o segundo parece ser marcado por controle.

Milena afirmou que uma das maiores preocupações das empresas hoje é entender quem acessa quais dados, quais permissões existem e como garantir rastreabilidade.

Segundo ela, plataformas corporativas passaram a incorporar capacidades de orquestração, monitoramento e governança justamente para evitar que a expansão da IA amplie exposição.

"Proteção de dados é algo inegociável", afirmou.

Graciela complementou que o desafio aumentou porque muitos colaboradores passaram a experimentar ferramentas abertas sem critérios corporativos.

Segundo ela, isso exige governança centralizada e políticas claras.

"Imagine colaboradores enviando dados estratégicos e sensíveis sem saber onde essa informação vai parar", afirmou.

Para a CEO da Netshoes, três pilares precisam orientar qualquer estratégia: transparência e consentimento com clientes, coleta inteligente de dados e geração clara de valor para quem compartilha informações.

"Menos é mais. Colete apenas aquilo que realmente será usado", afirmou.

Custo de IA começa a substituir custo de infraestrutura

Um dos momentos mais interessantes do painel apareceu quando a discussão migrou da tecnologia para economia.

Milena relatou que algumas empresas aceleraram projetos sem revisar arquitetura e começaram a enfrentar custos inesperados.

"Tive cliente dizendo que o custo de token ficou maior que o custo de infraestrutura", afirmou.

Segundo ela, o problema não está necessariamente na IA, mas na forma como aplicações são desenhadas.

A recomendação foi que empresas pensem arquitetura desde o início, compreendendo consumo, armazenamento e padrões de acesso antes de escalar modelos.

"O custo não é um problema hoje, mas pode se tornar", afirmou.

Apesar disso, a executiva defendeu que a tecnologia já está acessível para empresas de todos os portes.

Segundo ela, startups inclusive tendem a adotar IA mais rapidamente pela necessidade de acelerar crescimento.

Mercado de trabalho muda, mas conhecimento continua sendo diferencial

Ao abordar impacto sobre empregos, as executivas convergiram em um ponto: funções devem mudar antes que desapareçam.

Milena afirmou que o desconhecimento ainda é o maior obstáculo para adoção. "Você não será substituído pela IA, mas provavelmente será substituído por alguém que saiba usar IA", afirmou. 

Durante o painel, a executiva anunciou uma nova fase do programa de capacitação do Google Cloud.

Após atingir antecipadamente a meta inicial de formar 1 milhão de brasileiros, a empresa lançou o Capacita Mais, iniciativa gratuita que pretende alcançar mais de 3 milhões de pessoas no país.

Já Graciela afirmou que a transformação exige mudança organizacional e não apenas tecnológica.

Na Netshoes, a empresa criou um grupo internoí, formado por profissionais de diferentes áreas para testar iniciativas e disseminar boas práticas. "A IA não é da tecnologia. Ela é da companhia inteira", afirmou.

Próxima etapa será redesenhar processos, não automatizar o passado

Ao encerrar o painel, Graciela deixou uma recomendação que sintetizou boa parte da discussão.

Segundo ela, o erro mais comum das empresas é tentar automatizar modelos existentes.

"Não olhe para IA como algo que vai automatizar um processo existente. Você precisa redefinir o processo usando IA", afirmou.

Na prática, a mensagem que ficou do palco foi que a próxima geração de projetos não será definida por quem implementa mais modelos.

Será definida por quem conseguir transformar tecnologia em arquitetura, arquitetura em processo e processo em resultado.