Digitalização é positiva, mas traz riscos de novas desigualdades

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Debate sobre novas tecnologias nas escolas durante o Educação Conectada 2026. Foto: TELETIME

Se de um lado o avanço da conectividade em escolas traz a oportunidade real de transformação do ensino e dos recursos de aprendizagem, de outro existe uma preocupação não menos importante com a efetividade dos resultados desta transformação e com a possibilidade de que se criem novas lacunas (gaps) digitais. Este foi um dos aspectos destacados pelos especialistas do painel que tratou de Inteligência Artificial no Seminário Educação Conectada, realizado nesta terça, 26, em Brasília, com organização da TELETIME.

Para o secretário de educação de Porto Alegre e presidente do Conselho Nacional de Secretarias de Educação das Capitais (Consec), Leonardo Pascoal, a maior prova de que é preciso olhar com muito cuidado para a introdução de tecnologias na educação é o fato de que o Brasil ainda não teve melhoras significativas nos indicadores de aprendizado mesmo considerando os avanços de digitalização das últimas décadas. "Nosso números não são muito melhores. Para ele, o uso da tecnologia tem o potencial de gerar "saltos de produtividade" ou "aprofundamento de desigualdades", dependendo de quem a utiliza e como.

Ele entende que uma das razões pelas quais a tecnologia não necessariamente se transmuta em melhorias do ensino é o fato de que os professores não estão preparados para ensinar o uso adequado da tecnologia.

Para ele, a baixa qualidade da formação inicial dos professores é um problema significativo, com apenas dois de cada dez saindo da sua fase de formação em níveis desejáveis de literacia digital. "A formação continuada é crucial para que os professores possam usar as ferramentas de IA e outras tecnologias de forma eficaz", diz.

Tecnologia com olhar crítico

Para Israel Batista, conselheiro do Conselho Nacional de Educação, "houve um erro no passado ao permitir que as novas tecnologias entrassem na escola sem um olhar crítico, resultando em mais problemas do que soluções". Para ele, no novo ambiente em que a IA avança de forma avassaladora sobre as atividades de estudantes e educadores, é preciso pensar em processos com intencionalidade. Ele explica que o Conselho Nacional de Educação está atualmente realizando uma consulta pública para ouvir a sociedade sobre esse tema da Inteligência Artificial, com o objetivo de emitir diretrizes que serão válidas para a educação básica e superior, "orientando o uso da IA e complementando resoluções anteriores sobre educação digital e midiática";

Este é um outro aspecto relevante do debate: preparar educadores e alunos a conviverem com a informação no ambiente digital. Esta é uma batalha que o Instituto Palavra Aberta trava há muito tempo, explica Patrícia Blanco, presidente da entidade, mas que agora ganhou ainda mais relevância diante do avanço da informação que chega filtrada e processada por plataformas de IA. 

Educação midiática e letramento digital

Segundo Patrícia Blanco, houve nos últimos anos avanços importantes em marcos regulatórios que ajudam a preparar as novas gerações e os atuais educadores para a realidade digital, como a Política Nacional de Educação Digital e a obrigatoriedade da educação digital e midiática, que "estão criando espaços para que a gente possa, de fato, levar a educação digital e midiática para a sala de aula", mas ainda há muitas preocupações.  "É fundamental diferenciar entre 'estudar ou educar com IA, e estudar e educar sobre IA', para que se possa entender os algoritmos e vieses por trás da tecnologia", diz.

A Anatel também já detectou que sem um esforço concentrado no campo do letramento e da inclusão digital, sempre haverá uma parcela da população excluída. Segundo Cristiana Camarate, superintendente de relações com o consumidor da agência, o letramento digital e as habilidades digitais estão intrinsecamente ligados a todas as discussões sobre educação e tecnologia, sendo um reflexo da sociedade hoje em ainda há uma baixa porcentagem da população com habilidades digitais básicas, mesmo entre aqueles com ensino superior. Segundo ela, "quem não tem habilidades de matemática e leitura básica, dificilmente vai conseguir avançar com habilidade digital mais aprofundada".

Segundo dados compilados pela agência, apenas 33% da população com ensino superior, 15% com ensino médio e 2,5% com ensino fundamental estão acima do nível básico em habilidades digitais, sendo zero para analfabetos funcionais.

Ainda segundo Camarate, na área de segurança digital (fundamental para coibir, por exemplo, golpes digitais), apenas 23% da população brasileira está acima do nível básico, e para alcançar os 10 países líderes em segurança até 2050, o Brasil precisaria treinar 3,1 milhões de pessoas nessa área.

A Anatel vem desenvolvendo uma série de projetos piloto de correção dos gaps de letramento digital que, segundo a superintendente, visam servir de modelos para serem escalados em futuras políticas públicas, como leilões de espectro ou obrigações de fazer. A Anatel também trabalha com o Ministério das Comunicações no Plano Nacional de Inclusão Digital, reforçando esse componente do letramento e das habilidades básicas como condição fundamental para a universalização da conectividade.