Empresas de tecnologia vendem suporte, mas o que o cliente compra é confiança

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*Por Rodrigo Gazola

Existe uma discussão que o mercado de tecnologia ainda precisa fazer com mais profundidade: quando uma empresa contrata um MSP, ela não está apenas terceirizando suporte técnico. Ela está entregando confiança.

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Na prática, um prestador de serviços gerenciados passa a ter acesso a partes críticas da operação do cliente: servidores, backups, Microsoft 365, firewalls, endpoints, políticas de segurança, dados corporativos e, em muitos casos, à própria continuidade operacional do negócio. Poucos modelos de prestação de serviço carregam um nível tão alto de responsabilidade.

Por isso, crescer um MSP não deveria significar apenas vender mais contratos. Deveria significar também elevar maturidade operacional, governança, padronização, automação e capacidade de execução. Quanto maior a base de clientes, maior a exposição. E quanto maior a exposição, maior precisa ser o controle.

A Pesquisa ADDEE 2025 – Diagnóstico do Mercado MSP no Brasil ajuda a dimensionar esse desafio. O levantamento mostra que o MSP brasileiro já não está mais em uma fase inicial de adoção tecnológica. Pelo contrário: 96% utilizam RMM, 87% usam service desk, 99% contam com solução profissional de backup e 80% comercializam EDR. Isso desloca o debate. O diferencial competitivo não está mais apenas em quais ferramentas o MSP usa, mas em como ele opera essas ferramentas no dia a dia.

Esse é um ponto central. Tecnologia pode ser comprada. Maturidade operacional, não. Ela precisa ser construída com processos, indicadores, documentação, treinamento, revisão contínua, automação e governança.

A própria pesquisa mostra que o crescimento do setor não tem sido acompanhado, na mesma proporção, por padronização e controle. 68% dos MSPs reportaram crescimento de faturamento de até 30% no último ano, mas o estudo alerta que esse avanço veio junto com aumento da base de dispositivos gerenciados e com fragilidades operacionais ainda não resolvidas. Quanto maior a operação, maior o impacto de falhas que antes eram toleráveis.

Esse é o ponto de virada para o mercado. Um MSP desorganizado não gera apenas ineficiência interna. Ele aumenta o risco operacional para todos os clientes que atende. E, em muitos casos, esse risco não aparece no contrato, mas aparece no incidente: quando o backup não restaura, quando o endpoint não estava coberto, quando o chamado crítico não tem prioridade clara, quando a equipe depende de uma pessoa-chave ou quando ninguém sabe exatamente de onde vêm os problemas recorrentes.

A pesquisa da Addee identificou que a operação diária consome grande parte da energia dos MSPs, limitando a capacidade de estruturar processos, revisar padrões e implementar melhorias de longo prazo. Entre os principais desafios apontados estão sobrecarga operacional, dificuldade de padronizar clientes, falta de clareza sobre o próximo passo, segurança ainda percebida como risco e não como disciplina, além do crescimento mais rápido que a maturidade. O problema, portanto, não é ausência de consciência. O mercado sabe que precisa evoluir. O desafio está em transformar essa percepção em método.

Crescer sem processo é acumular risco operacional, porque a operação passa a depender de conhecimento intuitivo e pessoas-chave. Esse modelo limita a capacidade de escalar sem perda de qualidade, margem e previsibilidade. Os números reforçam o alerta: 63% dos MSPs revisam processos apenas uma vez por ano ou menos. Isso significa que, em boa parte do mercado, o conhecimento ainda está disperso em documentos isolados, checklists parciais, rotinas informais ou na memória do time técnico.

Em uma operação pequena, isso pode parecer administrável. Em uma operação em crescimento, vira risco. A entrada de novos clientes, novos dispositivos, novos ambientes e novas demandas aumenta a complexidade. Se os processos não estão documentados e revisados, cada exceção vira improviso. E o improviso, em tecnologia, cobra caro.

A automação deveria ser uma das respostas a esse cenário, mas ainda é pouco estruturada. Ela acaba sendo vista como ganho de tempo, e não como motor de estabilidade, escalabilidade e redução de risco. Esse é um erro estratégico. A automação não serve apenas para economizar minutos em tarefas repetitivas. Ela deve reduzir incidentes recorrentes, padronizar respostas, aumentar a previsibilidade e liberar o time técnico para atividades de maior valor. Quando usada de forma isolada e reativa, a automação ajuda pouco. Quando incorporada à governança operacional, ela muda o patamar do serviço.

É preciso uma mudança de percepção urgente. O trabalho de um MSP moderno vai muito além da tecnologia. Ele envolve disponibilidade, segurança, continuidade, produtividade, proteção de dados, resposta a incidentes e, muitas vezes, a capacidade do cliente continuar operando.

Por isso, a pergunta que deveria orientar o crescimento do setor não é apenas “quantos clientes novos entraram?”, mas “a operação ficou mais madura para suportar esse crescimento?”.

O MSP do futuro não será necessariamente o que tem mais ferramentas. Será o que consegue operar com previsibilidade, escala, governança, automação, segurança e maturidade operacional. Será aquele capaz de transformar confiança em método e método em entrega consistente. A tecnologia pode ser comprada. Mas a confiança operacional precisa ser construída todos os dias. *Rodrigo Gazola é CEO da Addee.

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