A adoção de inteligência artificial deixou de ser apenas uma aposta experimental no Grupo HEINEKEN para se transformar em uma estratégia estruturada de geração de valor, produtividade e eficiência operacional. Segundo Rodrigo Murta, vice-presidente de Tecnologia da companhia no Brasil, a empresa já colhe resultados expressivos com projetos de IA aplicados em praticamente todas as áreas do negócio, desde logística e finanças até marketing, jurídico, RH e atendimento comercial
Murta afirma que a jornada de inteligência artificial da companhia começou antes da explosão da IA generativa impulsionada por ferramentas como ChatGPT, Microsoft Copilot e Google Gemini. Segundo ele, a criação da diretoria de Data & Analytics, há cerca de cinco anos, marcou o início de um movimento estratégico que posicionou a operação brasileira como referência global dentro do grupo.
"Cada real que a gente investe em inteligência artificial gera, em média, dez reais de retorno", afirmou o executivo ao destacar que os projetos desenvolvidos já acumulam mais de R$ 1 bilhão em criação de valor nos últimos três anos, considerando aumento de receita, redução de custos e ganhos operacionais.
Atualmente, a área de tecnologia da companhia conta com cerca de 70 profissionais dedicados a iniciativas de IA e analytics, além de um amplo ecossistema de parceiros e fornecedores especializados. A operação brasileira da cervejaria reúne 13 cervejarias, mais de 40 centros de distribuição próprios e uma rede de revendedores e cooperativas parceiras.
Segundo Murta, a escolha entre modelos abertos e fechados de inteligência artificial depende diretamente do tipo de problema de negócio e do nível de criticidade dos dados envolvidos. Projetos considerados estratégicos e que representam vantagem competitiva costumam ser desenvolvidos internamente, enquanto soluções já consolidadas no mercado são incorporadas por meio de startups, big techs e parceiros especializados.
A governança da IA passou a ocupar um papel central dentro da companhia, principalmente diante dos riscos relacionados ao vazamento de dados corporativos. Para reduzir ameaças, a empresa investe fortemente em conscientização dos colaboradores sobre o uso adequado das plataformas generativas.
A companhia utiliza o Microsoft Copilot como ambiente corporativo seguro para tratamento de dados internos e confidenciais. Segundo Murta, o investimento anual da companhia na plataforma supera R$ 2 milhões. Hoje, cerca de mil colaboradores utilizam ativamente a ferramenta no dia a dia para ganho de produtividade e desenvolvimento de agentes personalizados.
"A gente deixa muito claro que qualquer informação estratégica ou confidencial deve ser utilizada apenas dentro do ambiente corporativo fechado", explicou o executivo. A empresa também avalia implementar alertas automáticos para conscientizar funcionários quando acessarem plataformas públicas de IA generativa.
A política de segurança envolve integração entre as áreas de tecnologia, cibersegurança, compliance, jurídico e comunicação corporativa. Antes da implementação de qualquer projeto, equipes multidisciplinares avaliam riscos regulatórios, privacidade de dados, impactos reputacionais e vulnerabilidades operacionais.
Murta acredita que a discussão sobre soberania digital não deve ficar restrita apenas a governos ou setores críticos. Para ele, todas as empresas precisarão evoluir rapidamente em mecanismos de proteção, governança e controle de dados diante do avanço acelerado da inteligência artificial.
Na prática, os projetos já em operação demonstram como a IA vem sendo utilizada em larga escala na companhia. Na área logística, algoritmos são empregados para otimização da malha de distribuição, previsão de ruptura de estoque e definição inteligente de políticas de armazenagem. Em finanças, os modelos auxiliam na previsão de inadimplência, elasticidade de preços, análise de rentabilidade e concessão de crédito.
A companhia também utiliza inteligência artificial para prever churn de clientes, recomendar produtos, analisar satisfação dos consumidores e identificar riscos de rotatividade de colaboradores. Na indústria, modelos monitoram qualidade da cerveja, modulação de resfriamento para redução do consumo energético e manutenção preditiva de equipamentos.
Entre os projetos destacados pela companhia estão iniciativas como Política de Estoque, Ruptura de Estoque, Programação de Manutenção Preditiva, Ferramenta de Recomendação de Crédito, Previsão de Fraude, Marketing Preparado para IA e NAV Next, focado na implementação de agentes inteligentes para automação de televendas.
Na área comercial, vendedores utilizam reconhecimento de imagem e algoritmos de visão computacional para analisar gôndolas em pontos de venda. A tecnologia identifica preços, disposição dos produtos e conformidade do planograma em tempo real.
Já no marketing, a companhia passou a utilizar IA generativa para produção de campanhas, imagens, vídeos, conteúdos 3D e peças de áudio em escala industrial, reduzindo tempo de criação e custos operacionais.
O avanço da IA agêntica também já faz parte do radar estratégico da empresa. Embora cerca de 80% dos investimentos ainda estejam concentrados em modelos tradicionais de machine learning e analytics, aproximadamente 20% dos recursos já são direcionados a projetos de IA generativa e agentes autônomos.
Um dos principais projetos em desenvolvimento é um agente de televendas capaz de atender pontos de venda por voz e mensagens utilizando linguagem natural e sotaques regionais personalizados. Segundo Murta, a solução permitirá ampliar o alcance comercial da companhia sem substituir os profissionais atuais.
Outro foco importante está na automação inteligente do centro de serviços compartilhados da empresa, especialmente em atividades que exigem interpretação de documentos, validação de dados e tomada de decisão operacional.
Além dos ganhos internos, o hub brasileiro de inteligência artificial da companhia passou a exportar modelos e aplicações para outras operações da empresa nas Américas, incluindo os Estados Unidos. Entre os projetos internacionalizados estão soluções de previsão de ROI de campanhas de marketing e previsão de demanda.
Murta afirma que o avanço da IA também exigirá transformação profunda na formação de profissionais de tecnologia. Segundo ele, a companhia abandonou modelos padronizados de capacitação para adotar trilhas individualizadas de aprendizado, respeitando o perfil e o estilo de cada colaborador.
"Cada pessoa aprende de um jeito diferente. Tem gente que aprende lendo, outras em treinamentos presenciais, eventos, fóruns ou cursos online. A gente passou a construir jornadas personalizadas de desenvolvimento", afirmou.
Para o executivo, os próximos anos serão marcados pela aceleração do time-to-market no desenvolvimento de sistemas e aplicativos impulsionados por plataformas no-code baseadas em IA. Ele também acredita que consumidores utilizarão cada vez mais inteligência artificial para tomada de decisão de compra, transformando a forma como marcas se posicionam no ambiente digital.
Murta reforça que todos os projetos desenvolvidos pela companhia passam obrigatoriamente por análises detalhadas de ROI e business case antes de serem aprovados. Segundo ele, qualquer iniciativa cujo custo operacional supere o potencial de geração de valor é descartada ainda na fase inicial.
O Grupo HEINEKEN é atualmente a segunda maior cervejaria do país e líder nos segmentos puro malte e premium. O portfólio reúne marcas como Heineken, Amstel, Eisenbahn, Sol, Baden Baden, Blue Moon e Devassa, além de bebidas não alcoólicas como Heineken 0.0, Itubaína, FYS, Mamba Water e Baer-Mate. A empresa emprega mais de 13 mil pessoas no Brasil e opera 13 cervejarias, incluindo a unidade de Passos, em Minas Gerais, inaugurada em 2025.
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há 4 horas
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