O novo mapa da conectividade e o protagonismo brasileiro 

há 2 horas 1

*Por Alexandre Alves

Por muito tempo, a inovação tecnológica foi tratada no Brasil como algo importado. O olhar esteve, quase sempre, voltado para fora, especialmente para os EUA e a Ásia, esta vista como referência incontestável em eficiência e avanço digital. Mas essa lógica começa a se inverter quando analisamos com mais profundidade o setor de telecomunicações. O que emerge é um cenário menos intuitivo e mais provocador: em diversos aspectos, o Brasil não apenas acompanha mercados considerados maduros, como passa a superá-los.

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Um dos exemplos mais evidentes dessa mudança está na própria infraestrutura de conectividade. Em países como o Japão, ainda é comum a presença de redes HFC (Hybrid Fiber-Coaxial). Trata-se de uma arquitetura que combina fibra óptica até determinado ponto da rede e, a partir dali, utiliza cabos coaxiais para chegar ao usuário final. Embora tenha sido uma solução eficiente por muitos anos, esse modelo apresenta limitações em termos de velocidade, latência e escalabilidade quando comparado à fibra óptica pura.

No Brasil, essa transição já aconteceu, e em ritmo acelerado. Dados de 2025 da Anatel mostram que 79% dos acessos de banda larga fixa no país já são realizados por meio de fibra óptica. Esse número, por si só, revela uma mudança estrutural profunda. Mais do que modernizar a infraestrutura, o Brasil criou uma base tecnológica preparada para sustentar a crescente demanda por serviços digitais de alta capacidade.

Esse avanço não se limita à banda larga fixa. Ainda segundo a Anatel, o país alcançou 270,2 milhões de acessos à telefonia móvel em 2025, frente a 263,4 milhões no ano anterior. O crescimento contínuo reforça não apenas a expansão da conectividade, mas a centralidade que o digital ocupa na vida cotidiana e na dinâmica econômica do país.

Esse cenário ganha ainda mais relevância quando analisado sob a ótica da estrutura de mercado. Diferente de países com alta concentração, o Brasil desenvolveu um ecossistema descentralizado, impulsionado por milhares de ISPs regionais. Esses provedores não apenas ampliaram o acesso à internet em regiões historicamente negligenciadas pelas grandes operadoras de telefonia, como também elevaram o nível de competição e inovação em todo o setor.

E é justamente aqui que surge uma reflexão importante. A inovação não nasce apenas de grandes centros tecnológicos ou de mercados altamente concentrados. Muitas vezes, ela emerge da necessidade de competir, de se adaptar rapidamente e de encontrar eficiência onde antes havia limitação. No Brasil, os ISPs operam sob essa lógica. São estruturas mais ágeis, próximas do cliente e com maior capacidade de resposta às demandas locais. Isso cria um ambiente onde a evolução tecnológica deixa de ser opcional e passa a ser condição de sobrevivência.

Esse dinamismo também se reflete na confiança do mercado. Dados do Banco Central, analisados pelo Ministério das Comunicações, mostram que os investimentos externos no setor alcançaram R$ 39,1 bilhões em 2025, um crescimento de 20,4% em relação aos R$ 32,4 bilhões registrados em 2024. Esse volume não apenas sinaliza o potencial do mercado brasileiro, como também reforça a percepção de que há, no país, um ambiente propício para expansão, inovação e geração de valor.

Ao mesmo tempo, o contraste com mercados tradicionalmente avançados levanta um ponto de atenção. Estruturas mais concentradas, como as observadas em alguns países asiáticos, tendem a oferecer estabilidade, mas podem reduzir a pressão competitiva que impulsiona a inovação. O resultado é um ritmo de transformação mais gradual, especialmente quando comparado ao que se observa no Brasil.

Outro aspecto que reforça esse protagonismo é o comportamento digital da sociedade brasileira. A rápida adoção de soluções tecnológicas, a alta demanda por conectividade e a abertura a novos serviços criam um ciclo virtuoso, em que infraestrutura e consumo evoluem de forma simultânea. Nesse contexto, os ISPs deixam de ser apenas provedores de acesso e passam a atuar como plataformas de serviços integrados, ampliando seu papel na economia digital.

O que se desenha, portanto, não é apenas um avanço técnico, mas uma mudança de posicionamento. O Brasil deixa de ocupar o papel de seguidor para assumir, em determinados segmentos, uma posição de liderança.

A questão que fica não é mais se o país consegue acompanhar os mercados mais avançados, mas até que ponto esses mercados conseguirão acompanhar o ritmo brasileiro. Porque, ao que tudo indica, a inovação já não é mais algo que chega de fora. Ela está sendo construída aqui. * Alexandre Alves é CEO da Wave Technologies, holding responsável pela TIP Brasil.

Este artigo é de total responsabilidade do autor, não representando, necessariamente, a opinião do Portal IPNews.

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