Read AI aposta em "gêmeos digitais" e diz que próxima geração da IA deixará de esperar comandos

há 1 dia 1

No início da corrida da inteligência artificial, grande parte das aplicações corporativas seguiu uma lógica relativamente simples: o usuário fazia uma pergunta, recebia uma resposta e decidia o que fazer com aquela informação. Para a Read AI, esse modelo começa a dar sinais de esgotamento.

Durante entrevista concedida à TI Inside durante o Web Summit Rio 2026, David Shim, CEO e cofundador da Read AI, afirmou que a próxima etapa da inteligência artificial será marcada por agentes capazes de operar de maneira mais autônoma, compreender contexto e agir de forma proativa dentro dos fluxos de trabalho.

Segundo o executivo, o mercado ainda está muito concentrado em interfaces conversacionais e experiências baseadas em busca. Mas a direção que a empresa observa é diferente. "Continuamos vendo um momento muito forte para IA agêntica, mas a forma como ela está sendo utilizada mudou bastante em relação ao que discutíamos um ano atrás", afirmou.

Na visão da companhia, os agentes começam a deixar de funcionar como assistentes que respondem comandos e passam gradualmente a assumir papel mais próximo de um membro da equipe.

Agentes começam a conversar entre si

Segundo Shim, uma das mudanças mais recentes foi a capacidade de conectar diferentes modelos e permitir que agentes interajam entre si.

A empresa lançou conectores que permitem que sistemas conversem diretamente com diferentes modelos e plataformas. Na prática, isso significa permitir que um agente consulte outro, troque informações e construa respostas de forma integrada.

Para o executivo, essa mudança altera profundamente o papel da IA. "Antes o agente ia para a reunião, fazia as anotações e voltava com um resumo. Agora os agentes começam a conversar entre si", afirmou.

Segundo ele, ainda existe supervisão humana sobre decisões e comandos, mas a tendência é ampliar autonomia operacional.

Read AI aposta em gêmeos digitais para ampliar produtividade

Entre as principais novidades apresentadas pela companhia está a Ada, solução que a empresa descreve como um "gêmeo digital" projetado para aprender padrões de trabalho e executar atividades em nome do usuário.

A ferramenta utiliza informações conectadas — como reuniões, e-mails, arquivos, CRM e histórico operacional — para entender comportamento e sugerir ações futuras.

Segundo Shim, a proposta não é substituir profissionais. "O agente é você, mas em uma forma digital", afirmou. Ao explicar o funcionamento, o executivo descreveu um cenário em que o sistema observa padrões repetidos e passa a sugerir ações antes de executá-las. Como exemplo, citou atualizações de CRM realizadas após reuniões.

No primeiro momento, o sistema apenas observa. Em seguida, passa a sugerir mudanças e eventualmente pergunta se pode executá-las automaticamente.

Segundo dados compartilhados pela empresa, 52% dos brasileiros afirmam que se sentiriam confortáveis em utilizar um gêmeo digital desde que exista transparência sobre o papel da IA.

IA proativa amplia produtividade, mas recoloca governança no centro

Questionado pela TI Inside sobre riscos relacionados à expansão dos agentes proativos, especialmente em cenários de acesso ampliado a dados corporativos, Shim afirmou que a empresa estruturou diferentes níveis de controle.

Segundo ele, existe separação entre automações operacionais e atividades sensíveis. Tarefas como agendamento podem ser realizadas automaticamente quando já existe interação prévia entre usuários. Já respostas, compartilhamento de conteúdo ou ações que envolvam contexto mais sensível exigem validação humana. "O usuário continua sendo o operador e decide se quer aceitar ou não", afirmou.

Além disso, administradores de tecnologia podem definir políticas sobre quais tipos de dados podem ser utilizados pelos agentes.

Segundo o executivo, empresas conseguem limitar acesso apenas a reuniões e e-mails, bloqueando por exemplo arquivos ou informações consideradas mais críticas.

Corrida por tokens começa a dar lugar ao retorno sobre investimento

Outro tema abordado na entrevista foi o crescimento dos custos relacionados à adoção de IA.

Ao comentar exemplos recentes do mercado em que empresas ampliaram fortemente consumo de modelos, Shim afirmou que parte desse movimento teve um papel importante de incentivo à adoção, mas gerou desperdícios.

Segundo ele, algumas organizações estimularam uso intensivo para acelerar mudança cultural. Agora começam a entrar em uma nova etapa. "Houve muito uso por demonstração e não necessariamente por produtividade", afirmou.

Na avaliação do executivo, a tendência é que as empresas passem a estabelecer limites de consumo e ampliem investimentos apenas em iniciativas que demonstrem impacto concreto.

O modelo adotado pela Read AI busca reduzir esse atrito por meio de precificação fixa, sem cobrança por volume de reuniões ou quantidade de consultas realizadas.

Brasil se torna um dos mercados mais estratégicos da Read AI

Ao comentar a operação local, Shim afirmou que o Brasil passou por uma aceleração significativa no último ano.

Segundo ele, mais de 1 milhão de brasileiros criaram contas na plataforma desde o início do ano passado. No período, a companhia registrou crescimento superior a 200% em novas contas e avanço de aproximadamente 291% em receita no país.

Segundo o executivo, o comportamento do consumidor brasileiro apresenta características próprias. Os usuários tendem a experimentar mais antes de comprar. Mas quando percebem valor, convertem mais rápido. "O Brasil hoje tem a maior taxa de conversão de usuários gratuitos para pagantes entre todos os nossos mercados", afirmou.

A empresa também passou a aceitar pagamentos via Pix e estuda ampliar estrutura local para oferecer suporte mais próximo ao mercado brasileiro.

Próxima geração da IA pode funcionar menos como ferramenta e mais como equipe

Além do lançamento da Ada, a companhia divulgou durante o evento um estudo com trabalhadores brasileiros que mostra uma mudança importante na percepção sobre inteligência artificial.

Hoje, 31% dos profissionais já consideram IA uma parte essencial do trabalho diário e quase um quarto afirma utilizar essas ferramentas pelo menos uma vez por dia.

Ao mesmo tempo, 75% afirmam que o tempo economizado rapidamente é preenchido por novas demandas e 80% dizem sentir aumento na pressão por produtividade.

Para Shim, isso mostra que a próxima etapa da adoção não será definida por mais ferramentas. Será definida por sistemas capazes de reduzir atrito e operar diretamente dentro dos fluxos existentes. "Esses agentes vão funcionar mais como alguém da sua equipe do que como um assistente", concluiu.