No começo de 1993, Curtis Priem e Chris Malachowsky estavam sem emprego (ou quase). Malachowsky esperou até assinar a aprovação final do seu último chip na Sun Microsystems para pedir demissão. “Um bom engenheiro não abandona suas responsabilidades”, disse em declararão ao livro NVIDIA Way, que traça a história da companhia que hoje domina o fornecimento de chips que para IA.
É bem provável que você nunca tenha ouvido falar de Priem ou Malachowsky, os holofotes quando falamos sobre NVIDIA ficou concentrado com o terceiro nome da sociedade. O único dos três que segue no negócio, e que sua visão foi determinante para o que a gigante dos chips é hoje. O magnata da jaqueta. Jensen Huang.
Jensen Huang entrou na sociedade no dia 17 de fevereiro daquele ano, seu aniversário de 30 anos, e foi o grande administrador que soube segurar as pontas, ajustar a rota, e ser determinante para que a NVIDIA conseguisse se manter no mercado, em meio a tantas adversidades.
Já contei aqui no Hardware.com.br como a SEGA salvou a NVIDIA da falência nos anos 90, injetando US$ 5 milhões quando a empresa tinha um mês de caixa. O chip RIVA 128 funcionou, vendeu um milhão de unidades em quatro meses, e garantiu o primeiro lucro da NVIDIA desde sua fundação: US$ 1,4 milhão no quarto trimestre de 1997. Mas a resiliência e transformação seriam necessários em outro momento crucial.
A NVIDIA em 2001: empresa de US$ 1 bilhão e com alvo nas costas
Quatro anos depois da RIVA 128, a empresa estava numa posição que pareceu improvável durante muito tempo. A GeForce 3, lançada em fevereiro de 2001, foi a primeira GPU verdadeiramente programável da história, com shaders que deixavam desenvolvedores escrever suas próprias funções de renderização. David Kirk, cientista chefe da empresa, havia convencido Jensen com um argumento direto: se a NVIDIA não criasse esse mercado, a Intel jogaria as funções gráficas dentro do próprio CPU e tornaria placas dedicadas irrelevantes.
O chip foi um acerto. No terceiro trimestre fiscal de 2001, a receita trimestral da NVIDIA atingiu US$ 370 milhões, crescimento de 87% ano a ano, tornando a empresa a fabricante de semicondutores a alcançar US$ 1 bilhão em vendas anualizadas mais rápido na história dos EUA.
O chip que Jensen chamou de “merda” numa reunião com toda a empresa
Em 2000, a ATI Technologies comprou a ArtX, empresa fundada por ex-engenheiros da Silicon Graphics, por US$ 400 milhões. A aquisição trouxe os engenheiros que haviam trabalhado no Nintendo 64 e já tinham contrato para desenvolver o chip do GameCube. Com esse time, a ATI construiu o R300.
A NVIDIA, enquanto isso, estava integrando 100 engenheiros da 3dfx, rival comprada no mesmo período, e presa numa disputa contratual com a Microsoft que cortou o acesso à documentação do Direct3D 9. Os times de hardware e software da empresa pararam de falar entre si. Um engenheiro removeu o suporte a fog shaders sem avisar ninguém. Outro time nem sabia que a ATI já enviava anti-aliasing 4X em produção, recurso que gamers adoravam. “O que você está falando? A ATI já está mandando esse recurso num produto, e os gamers adoram”, disse um funcionário de relações com desenvolvedores ao ouvir a explicação.
O GeForce FX saiu com atraso de cinco meses, mais caro, mais lento nos jogos que importavam, e com um cooler muito barulhento. Jensen convocou uma reunião com toda a empresa. “Me falem sobre o NV30. É essa a merda que vocês pretendiam construir?”, ele disse. As vendas no trimestre de fim de ano caíram 30%. A ação despencou 80% em relação ao pico dez meses antes.
A hesitação da ATI
Radeon 9700 PROA Radeon 9700 PRO era tecnicamente superior em quase tudo que importava. Rodava Quake 3 e Unreal Tournament em alta resolução sem dificuldade. Tinha anti-aliasing melhor, cor 24-bit mais vibrante, e saiu em agosto de 2002, na janela certa para o período escolar. A ATI tinha margem de custo enorme: o R300 era um chip bem projetado, enxuto. O NV30 era mal arquitetado.
Com esse diferencial, a ATI podia ter cortado o preço do Radeon 9700 PRO agressivamente, destruído a demanda pela GeForce FX, e provavelmente levado a NVIDIA à falência. Optou por manter o mesmo preço do rival: US$ 399.
GeForce FX 5800 UltraO argumento de que a ATI teria medo de regulação antitruste não se sustenta nos dados daquele momento. No quarto trimestre de 2002 — exatamente quando o GeForce FX implodiu, a NVIDIA ainda detinha 65% do mercado de GPUs. A ATI tinha 35%. Cortar preço agressivamente para eliminar um rival que controlava dois terços do mercado não configuraria posição dominante: configuraria concorrência. A ATI era o desafiante com o melhor produto nas mãos.
Relembre a Ruby, “mercenária” da ATI imortalizada nas placas de vídeo Radeon
“Se Jensen estivesse comandando a ATI”, disse o engenheiro Dwight Diercks, “teria colocado a NVIDIA fora do negócio.”
Essa frase de Diercks, que segue na NVIDIA até hoje (ele entrou na empresa 1994) condensa bem todo o contexto.
Quatro anos depois, em 2006, a AMD comprou a ATI por US$ 5,4 bilhões. A NVIDIA, naquele mesmo ano, lançava o CUDA — a plataforma que definiria a corrida pela inteligência artificial duas décadas à frente. Essa lógica de longo prazo que Jensen aplica em cada decisão é a mesma que a ATI nunca teve.
.png)
há 1 hora
2










English (US) ·
Portuguese (BR) ·