
Por Valeria Carrete *- Durante quatro dias totalmente dedicados às trilhas de fintechs, infraestrutura de pagamentos e conectividade, no Web Summit Lisboa, ficou claro que estamos entrando em um novo ciclo geopolítico e tecnológico dos meios de pagamento e que o cenário global passa por uma transformação profunda: o mundo financeiro está deixando de ser unipolar.
O domínio histórico dos EUA — tanto tecnológico quanto monetário — começa a ser questionado de maneira estruturada, enquanto China, Europa e o Sul Global emergem como polos de influência, com agendas próprias e ambições declaradas.
O desconforto global com a hiperdependência do dólar
Embora não tenha sido vocalizado em discursos inflamados, o tema surgiu repetidamente em discussões técnicas e demonstrações: há um incômodo cada vez maior com a dependência de infraestruturas, moeda e padrões norte-americanos.
Esse movimento, que observo de perto analisando os mercados de toda a América Latina, tem bases claras: dominância tecnológica dos grandes provedores americanos, custos sistêmicos que impactam escala e inovação e a busca crescente por autonomia regional. Isso tem se materializado não como ruptura, mas como reposicionamento estratégico. E quem lidera essa conversa não é mais o Norte.
PIX: o Brasil deixa de seguir padrões e passa a criá-los
Poucos países ganham tanta atenção quanto o Brasil. O PIX, que já era observado internacionalmente, tornou-se símbolo de soberania tecnológica. No evento, ficou claro que ele representa algo maior do que eficiência de pagamentos: é a prova de que o Sul Global pode liderar inovação em grande escala.
Como executiva de uma empresa global vinculada a pagamentos, não posso ignorar a mudança que isso provoca: o Brasil passou de benchmark regional a referência geopolítica; infraestruturas públicas digitais ganham robustez e escala; o sul global deixa de ser receptor de tecnologia e passa a exercer influência. Isso reposiciona o país na mesa das discussões globais. E quando um país cria padrões, ele muda conversas, inspira soluções e influencia agendas globais.
China: presença coordenada e ambição visível
Nunca o protagonismo chinês esteve tão explícito. O China Summit, inédito na história do evento, materializou a estratégia do país de não disputar espaço, mas liderar a próxima década tecnológica.
A presença simultânea de líderes em IA, telecom, pagamentos e robótica mostrou uma agenda organizada, interoperável e com foco claro em exportação de infraestrutura. Isso tem impacto direto no ecossistema global de pagamentos, pois IA de código aberto acelera inovação, redes de pagamento regionais ampliam autonomia e soluções cross-border começam a operar fora do eixo USD. Tudo isso reforça a tese central: a disputa do século é tecnológica, não diplomática.
Europa busca soberania: interoperabilidade como estratégia continental
Entre os anúncios de maior impacto, a primeira transferência instantânea P2P entre MB WAY (Portugal) e BLIK (Polônia) — feita apenas com número de telefone — foi um marco geopolítico.
Esse movimento mostra uma Europa que finalmente se articula para construir uma infraestrutura própria, interoperável e menos dependente do modelo americano. A mensagem, nas entrelinhas, foi clara: a Europa quer recuperar o protagonismo perdido. Esse tipo de iniciativa redefine padrões, integrações, compliance e a própria rota da inovação financeira.
Stablecoins e IA financeira: o dinheiro do futuro já chegou…
A consolidação das stablecoins como infraestrutura séria de pagamentos apareceu de maneira inequívoca. O piloto da Visa, usando stablecoins em sua própria rede, sinaliza que os grandes players deixaram de observar para começar a executar, que pagamentos cross-border devem se transformar radicalmente e que a IA começa a ser incorporada diretamente à jornada financeira.
A introdução do Creator Agent, copiloto financeiro movido a IA, reforça que o dinheiro está entrando em uma era em que processa, decide, orienta e opera sozinho. E quem domina essa inteligência, domina influência.
Conclusão: Quem cria tecnologia, cria poder
Minha leitura final, após quatro dias intensos de encontros, é inequívoca:
· A hegemonia tecnológica dos EUA está sendo desafiada.
· A China assume posição de liderança com clareza.
· A Europa busca recuperar soberania.
· E o Sul Global — especialmente o Brasil — tornou-se protagonista real.
Essa confluência nos leva a uma conclusão firme: no século XXI, não domina o mundo quem controla recursos; domina quem controla tecnologia. E quem controla a infraestrutura do dinheiro controla o futuro.
Estamos entrando no próximo capítulo do sistema financeiro global. E, pela primeira vez em muito tempo, o Sul Global está no centro dele.
* Valéria Carrete é BRICS Business Council Member, vice-presidente de Emissores da PAGOS e diretora Comercial da TNS
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