R$ 23 milhões em outorgas. R$ 2 bilhões em compromissos de investimento. Cinco lotes regionais. E as quatro vencedoras do leilão de 700 MHz da Anatel, realizado em 4 de maio, não foram Vivo, Claro ou TIM. Foram Brisanet, Unifique, Amazônia 5G e iez!. São, portanto, quatro ISPs.
Leandro Gaunszer. Foto: DivulgaçãoNão foi acaso. O edital reservou a primeira rodada para operadoras regionais detentoras de espectro de 3,5 GHz adquirido no leilão do 5G em 2021. Foi desenho regulatório intencional, contestado nos tribunais por TelComp e Acel, e mantido em ambas as instâncias. As grandes só entrariam se sobrassem lotes — e não sobraram.
Na mesma semana, AT&T, T-Mobile e Verizon anunciavam nos Estados Unidos uma JV (joint venture) inédita para oferecer serviços satélite-celular aos seus clientes. As três maiores operadoras móveis americanas decidiram dividir o caminho em vez de competir nele.
Os dois fatos parecem desconectados. Não estão.
No céu: a corrida satélite-celular sai do laboratório
O movimento americano é a face mais visível de uma transformação que vinha se desenhando há dois anos. Direct-to-Device (D2D) — a ideia de que um celular comum, sem antena especial, fala diretamente com um satélite — deixou de ser tese para virar produto.
Em 14 de maio, AT&T, T-Mobile e Verizon formalizaram uma JV com o objetivo declarado de simplificar a oferta D2D. É um movimento defensivo, e também um reconhecimento: satélite-celular virou pré-condição de cobertura, não diferencial premium.
Não é o único sinal. Em 5 de maio, analistas mapearam o impacto da aquisição da Globalstar pela Amazon, que reorganiza o espectro MSS e abre caminho para a Amazon entrar em D2D com músculo próprio. A SpaceX foi descrita por Roger Entner, no Light Reading, não mais como operador de satélites, mas como detentor de espectro — mudança de status regulatório que três anos atrás ninguém previa. A AST SpaceMobile, mesmo após falha de lançamento da Blue Origin, manteve a meta de 45 BlueBirds em órbita ainda em 2026.
Há um terceiro vetor, talvez o mais relevante para a discussão brasileira: o avanço dos modelos multi-tenant em MSS.
A Viasat consolidou ao longo dos últimos meses uma das estratégias D2D mais coerentes do mercado. Tem produto operacional em banda L sobre MSS — espectro globalmente harmonizado para uso móvel satelital — e formou em setembro de 2025 a JV Equatys com a Space42, com planos para uma constelação de até 2.800 satélites em três camadas de altitude. O modelo declarado é o de "tower co. no espaço": arquitetura multi-tenant aberta a operadores móveis, alinhada ao 3GPP NTN. Capex previsto pela Space42 para 2026-2027: US$ 600 milhões.
E em 11 de maio, a própria Space42 anunciou parceria com a Skylo para integrar a plataforma NTN 3GPP-compliant da Skylo ao satélite Thuraya-4 (GEO, banda L). Demonstraram chamada de voz bidirecional, sem SIM modificado, sem alteração no core de operadoras. Pronto para deploy comercial em 37 países — sujeito a aprovações regulatórias por mercado.
O que esses movimentos têm em comum não é só o calendário. É o reconhecimento de que o satélite virou parte da arquitetura de rede móvel, e o eixo da disputa não é mais "operador A vs. operador B", mas qual constelação, qual espectro e qual modelo de negócio ganham escala primeiro.
O que isso significa para o Brasil
A pergunta legítima é: o que esses anúncios feitos lá têm a ver com o consumidor móvel daqui?
Mais do que parece — embora não pelos caminhos óbvios. Três pontos concretos.
Primeiro, padronização técnica. A integração satélite-celular avança no 3GPP porque há mercado escala nos EUA e Europa para financiar a R&D. Quando uma operadora brasileira (ou um operador satelital atuando aqui) decidir lançar D2D, o terreno técnico estará pavimentado. A demonstração Skylo-Thuraya com SIM não modificado é a prova mais recente de que o atrito de integração está caindo.
Segundo, pressão competitiva. A demanda por conexão em áreas rurais e zonas de serviço instável no Brasil já é grande — e está sendo capturada. Segundo dados oficiais da Anatel, a Starlink ultrapassou 660 mil acessos de banda larga fixa em fevereiro de 2026, com 1,2% de participação no mercado de banda larga fixa do país — o dobro do que tinha 18 meses antes. O cliente que hoje resolveu o problema de internet em casa com satélite é o mesmo que, amanhã, vai cobrar conectividade móvel quando estiver na estrada, na fazenda ou em deslocamento. D2D não vai inaugurar essa demanda; vai capturar uma demanda que já existe — e que as redes móveis terrestres não vinham conseguindo atender.
Terceiro — e aqui está o ponto mais subestimado da discussão — a Anatel chegou antes. O Brasil não está esperando os EUA decidirem como tratar D2D. O sandbox regulatório do Serviço Móvel Pessoal por satélite está em vigor desde abril de 2024. Em abril de 2025, a Anatel aprovou o Regulamento Geral dos Serviços de Telecomunicações (Resolução nº 777/2025), que em outubro do mesmo ano extinguiu a antiga licença de SMGS e a unificou ao SMP. Em termos práticos: um operador satelital pode hoje, no Brasil, oferecer serviço móvel diretamente ao cliente final sob a mesma licença que Vivo/Claro/TIM operam — sem precisar firmar parceria com operadora terrestre. As licenças MSS existentes migram automaticamente até outubro de 2027.
É uma decisão regulatória estruturante, tomada antes de o D2D virar produto em larga escala. O presidente da Anatel, Carlos Baigorri, colocou publicamente D2D como "principal motor de inovação" da pauta satelital em 2026, e a gerência de espectro estima que três ou quatro players globais devem ativar serviço D2D no Brasil entre 2026 e 2027.
A pergunta para o setor agora não é mais "quando o regulador vai permitir". É quem vai puxar o gatilho primeiro, e em que modelo.
Em terra: os ISPs já são protagonistas do capex móvel
Enquanto o tabuleiro do céu se reorganiza, o tabuleiro do território brasileiro tem uma novidade que não pode mais ser ignorada.
O resultado do leilão de 700 MHz é a evidência mais clara. A faixa — a melhor para cobertura em ambientes internos e zonas rurais — saiu para Brisanet (Nordeste e Centro-Oeste), Unifique (Sul), Amazônia 5G (Norte e SP) e IEZ!. Compromissos de cobertura: 864 localidades e 6.570 km de rodovias federais até 2030, com a BR-101 começando ainda este ano. Investimento previsto: R$ 2 bilhões.
Os balanços do 1T26, divulgados na mesma semana, contam o resto da história. A Unifique reportou receita líquida de R$ 329 milhões (+22% a/a), EBITDA de R$ 170 milhões (margem de 51,9%), lucro de R$ 52 milhões (+41%). Base móvel saltou 118%, para 288 mil acessos. Alavancagem em 0,58x EBITDA.
A Brisanet, em trilha mais agressiva, reportou receita de R$ 454 milhões (+16%), base móvel próxima de 1 milhão de clientes — e margem EBITDA caindo de 47% para 42% por custos de roaming e expansão. Alavancagem em 2,24x. Dois modelos econômicos diferentes, ambos crescendo.
E há um movimento de consolidação acontecendo em paralelo, que poucos estão lendo junto com o leilão. Em fevereiro, a Ligga Telecom (antiga Copel Telecom, controlada por Nelson Tanure) foi vendida em partes. A operação de banda larga fixa foi para a Brasil TecPar por R$ 1,775 bilhão — fazendo da TecPar a quarta maior operadora de banda larga fixa do país, atrás apenas de Claro, Vivo e Nio (antiga Oi). O espectro de 3,5 GHz da Ligga no Paraná foi para a Unifique. O espectro de 3,5 GHz no Norte e em São Paulo, da Sercomtel (do mesmo grupo), foi para o Consórcio Amazônia 5G.
A leitura combinada é reveladora: a mesma Unifique e a mesma Amazônia 5G que compraram espectro 5G da Ligga em janeiro venceram lotes do 700 MHz em maio. A consolidação não é só financeira — é de portfólio de espectro. Os ISPs regionais estão montando, peça por peça, operadoras móveis funcionais.
Em paralelo, a Telefônica Brasil anunciou redução de capital de R$ 4 bilhões aos acionistas — movimento de mercado de capitais, com sua lógica própria de incumbente madura. Histórias diferentes, em ciclos diferentes. Cada uma faz sentido na sua trajetória.
O que mudou é que o mapa do capex de cobertura no Brasil, hoje, inclui Sobral, Timbó, Manaus e Curitiba — não só São Paulo, Rio e Brasília.
A pergunta que fica
Olhando 12 meses à frente, o que esses dois movimentos têm em comum é mais do que coincidência de calendário. Em ambos, as três grandes operadoras nacionais deixaram de ser o único eixo da história — embora por caminhos opostos. Nos EUA, elas se uniram para responder à pressão de novos entrantes satelitais. No Brasil, o regulador incentivou o jogo abrindo mais espaço para os ISPs.
No céu, Amazon, SpaceX, AST, Viasat-Space42, Skylo — entre outros que se posicionam. Em terra, um conjunto crescente de ISPs com escala nacional ou regional relevante — Brisanet, Unifique, Desktop, Alares, SAMM, Brasil TecPar, Alloha/Giga+, Amazônia 5G, entre vários outros, dentro de um universo de mais de 10 mil provedores regionais ativos no país. O modelo de "três grandes resolvem tudo" não morre — mas perde monopólio explicativo dos dois lados.
A pergunta interessante para 2026-2027 não é só onde vai estar o capex. É quem fará as primeiras parcerias D2D comerciais no Brasil, em que arquitetura e usando que espectro. Operador satelital com licença SMP por satélite própria, oferecendo serviço direto ao cliente final (caminho Viasat/Equatys, eventualmente Starlink, em banda L/S MSS)? Operadora móvel terrestre fazendo acordo com player satelital para usar seu próprio espectro do SMP complementado pelo satélite (caminho americano)? Algum arranjo híbrido envolvendo os novos detentores de espectro do 700 MHz, com obrigação de cobertura em 864 localidades rurais?
São três modelos diferentes, três arquiteturas técnicas distintas, três lógicas concorrenciais distintas. O arcabouço regulatório brasileiro permite os três. A decisão é comercial.
Quem souber ler essa pergunta antes vai estar bem posicionado. Quem operar com a leitura de 2020 — três grandes resolvem cobertura, ISPs ficam na banda larga fixa, satélite é nicho — não vai.
*- Sobre o autor: Leandro Gaunszer é executivo de telecom com mais de 25 anos de experiência em operadoras móveis, satélite e infraestrutura digital, com atuação em LATAM e mercados globais. Foi CEO da Viasat Brasil e atua hoje como Coordenador do Comitê de Espectro do IBTD (Instituto Brasileiro de Telecomunicações Digitais) e consultor. Acompanha de perto as transformações em D2D, NTN, espectro e regulação satelital no Brasil.
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