Drones, IA e software próprio fazem da Energisa uma das empresas mais inovadoras do Brasil

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A construção de uma operação digital em setores altamente tradicionais costuma esbarrar em um desafio recorrente: transformar inovação em resultado sem criar complexidade adicional. No caso da Energisa, a estratégia parece ter seguido um caminho diferente. Em vez de concentrar esforços em iniciativas isoladas ou tecnologias pontuais, a companhia estruturou ao longo dos últimos anos uma arquitetura baseada em plataformas, produtos internos e desenvolvimento próprio, permitindo que soluções criadas para problemas operacionais evoluíssem para novas linhas de negócio.

Durante a 11ª edição do API Experience (APIX), evento promovido pela Sensedia realizado nesta quinta-feira (21), Gustavo Valfre, VP de Tecnologia da Energisa, detalhou em entrevista à TI Inside como a companhia vem estruturando sua estratégia tecnológica. Cliente da Sensedia há anos, a empresa utiliza a plataforma principalmente na gestão e comunicação de APIs entre aplicações dentro do seu ecossistema tecnológico. Mas a conversa acabou avançando para uma discussão mais ampla sobre arquitetura, IA, infraestrutura e transformação operacional.

Segundo o executivo, a visão atual da companhia é resultado de uma estratégia construída ao longo de muitos anos e que ultrapassa a área de tecnologia. "O grupo já pensa em inovação há mais de 20 anos, não é um tema recente", afirmou.

A combinação entre esse histórico e a decisão de construir grande parte das aplicações internamente acabou criando um modelo que, segundo o executivo, reduz custo total de propriedade e amplia a capacidade de adaptação do negócio.

Desenvolvimento próprio transforma problemas internos em novos negócios

A estratégia da Energisa parte de uma lógica diferente da construção tradicional de aplicações corporativas. Segundo Valfre, a companhia organiza suas jornadas de negócio e, a partir delas, desenvolve produtos específicos para resolver problemas operacionais ou de experiência.

Esses produtos são construídos sobre plataformas que organizam APIs, dados e infraestrutura compartilhada, permitindo reaproveitamento entre diferentes áreas da companhia. "A gente entendeu que desenvolvendo dentro de casa temos um custo muito menor da forma que fazemos hoje", afirmou.

Segundo ele, algumas iniciativas acabam extrapolando o uso interno e evoluem para negócios próprios. Foi o caso da Voltz, fintech do grupo que surgiu inicialmente para resolver necessidades internas, e posteriormente passou a estruturar serviços para outros mercados.

IA só entra quando existe retorno claro

Apesar do crescimento acelerado da inteligência artificial no mercado, Valfre afirmou que a companhia evita decisões guiadas por tendência ou hype tecnológico.

Segundo ele, antes de qualquer implementação existe um processo de análise operacional voltado a identificar impacto financeiro, aumento de qualidade ou geração de receita. "A gente não gosta de hype", afirmou.

A metodologia utilizada pela empresa começa pelo mapeamento completo dos processos internos, identificando gargalos e oportunidades de ganho. "A gente analisou cerca de 500 processos e priorizou aproximadamente 20 processos que entendemos ter alto impacto", afirmou.

Segundo o executivo, a companhia evita simplesmente inserir agentes ou automações em processos existentes. Antes disso, ocorre uma etapa de redesenho completo da operação. "Primeiro pensamos em redesenhar o processo fim a fim e só depois entregamos uma solução digital, um agente ou um RPA", afirmou.

Cloud e data center convivem sem dogmas

Outro ponto destacado durante a entrevista foi a visão da companhia sobre infraestrutura, especialmente em um momento em que o mercado discute temas como cloud first e repatriação de workloads.

Segundo Valfre, a Energisa evita modelos rígidos e toma decisões a partir de critérios técnicos e financeiros. "O FinOps é que decide para nós onde vai o custo", afirmou.

Hoje a companhia opera ambientes em diferentes provedores de nuvem, incluindo OCI, Azure, GCP e AWS, ao mesmo tempo em que mantém um data center próprio Tier 3 para workloads considerados mais tradicionais.

Segundo o executivo, mais da metade das aplicações da companhia permanece em ambientes internos, enquanto iniciativas mais digitais e de inovação operam predominantemente em nuvem. A estratégia também busca evitar aprisionamento tecnológico. "Não gostamos de lock-in", afirmou.

Drones com IA reduziram tempo de resposta em campo

Entre os casos destacados durante a conversa, um dos principais envolve o uso de drones associados a modelos de inteligência artificial para monitoramento da rede elétrica.

Segundo Valfre, a Energisa cobre aproximadamente 40% do território nacional, grande parte em áreas rurais, o que historicamente exigia processos longos e intensivos em recursos para inspeção da infraestrutura.

Antes, equipes percorriam extensas áreas, coletavam imagens e realizavam análises manuais antes da tomada de decisão.

Com a nova abordagem, drones capturam imagens e enviam automaticamente os dados para uma central unificada, onde modelos treinados identificam mais de 100 tipos diferentes de ocorrências. "O software entende o tipo de problema, identifica a gravidade e decide se despacha ou não uma equipe em campo", afirmou.

Segundo o executivo, a solução evoluiu para um produto comercializado externamente pela Reenergisa.

Conectividade leva operação digital para áreas sem telecom

Outro projeto citado envolve a chamada Frota Conectada, iniciativa criada para resolver limitações de conectividade em regiões remotas. Segundo Valfre, a empresa atua em localidades onde existem menos de um cliente por quilômetro quadrado, cenário que reduz o interesse econômico de operadoras tradicionais.

Para resolver esse problema, a companhia combinou comunicação via satélite com tecnologias proprietárias capazes de ampliar o alcance da conectividade. "Conseguimos levar conectividade em até cinco quilômetros ao redor do veículo", afirmou.

A estrutura permite que técnicos em campo permaneçam conectados ao centro operacional, executem processos digitais e realizem atendimentos em regiões anteriormente desconectadas.

Inovação deixa de ser projeto e passa a ser arquitetura

A leitura apresentada por Valfre aponta para uma abordagem em que inovação deixa de existir como iniciativa isolada e passa a operar como parte da arquitetura central da companhia.

Em vez de construir projetos independentes, a empresa trabalha com plataformas compartilhadas, reutilização de componentes e desenvolvimento orientado a retorno.

"Tudo o que fazemos é orientado ao impacto e ao retorno", afirmou.

Segundo o executivo, essa combinação entre infraestrutura, APIs, plataformas e produtos internos acabou permitindo que soluções desenvolvidas para resolver desafios específicos evoluíssem para ativos estratégicos do grupo.