Larentis: Datacenters para IA no Brasil – oportunidade em risco

há 3 semanas 21

*Por Sérgio Larentis – O debate sobre Inteligência Artificial (IA) no Brasil começa, finalmente, a se deslocar do plano conceitual para seguir para o terreno da infraestrutura. Datacenters tornaram-se ativos estratégicos em uma economia digital cada vez mais dependente de processamento intensivo, baixa latência e controle sobre dados. Ainda assim, o país segue avançando de forma hesitante, travado por incertezas regulatórias que afastam investimentos e reduzem sua competitividade regional.

Sergio Larentis, Math Group

Vejamos alguns aspectos importantes: Redata: um passo importante ainda incompleto Em setembro de 2025, o governo federal editou a Medida Provisória n° 1.318/2025, que criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata1.

O objetivo foi estabelecer incentivos fiscais para a instalação e operação de datacenters no país, condicionados a requisitos de eficiência energética, sustentabilidade e investimentos em inovação.

Apesar de estar em vigor, o Redata ainda depende de conversão em lei para oferecer previsibilidade jurídica. O Governo e o Congresso discutem sua incorporação ao Projeto de Lei da Inteligência Artificial, o PL 2338/23, como caminho para consolidar o regime2. Até que isso ocorra, parte relevante do mercado segue em compasso de espera. Datacenters tradicionais e a nova demanda da IA. Nem todo datacenter é igual.

Estruturas convencionais atendem aplicações corporativas, hospedagem e nuvem em geral. Já os datacenters voltados à IA precisam suportar cargas computacionais muito mais intensas, baseadas em GPUs (Graphics Processing Unit ou unidade de processamento gráfico), alto consumo energético e sistemas avançados de refrigeração. Essa diferença técnica tem impacto direto no investimento necessário, no licenciamento ambiental, na disponibilidade de energia e na escolha do local. Sem regras claras e incentivos estáveis, projetos desse porte tendem a migrar para países onde o risco regulatório é menor.

A América Latina acelera enquanto o Brasil discute

Outros países da região avançaram de forma mais objetiva. O Chile lançou um Plano Nacional de Datacenters com foco explícito em atrair investimentos e organizar a expansão do setor3.

No Uruguai, o anúncio de um novo datacenter do Google em Canelones, com investimento superior a US$ 850 milhões, reforçou a estratégia de posicionamento do país como hub regional4.

Também no Chile, a Amazon Web Services anunciou investimentos da ordem de US$ 4 bilhões em infraestrutura de nuvem e datacenters, com impacto direto na capacidade regional de processamento, inclusive para aplicações de IA5. Esses movimentos mostram que a competição por infraestrutura digital já está em curso.

O que já está sendo investido no Brasil

O Brasil continua sendo um mercado relevante. A Equinix, uma das maiores operadoras globais de datacenters, anunciou a expansão de suas operações no país e declarou o Brasil como mercado prioritário6. Além disso, grupos como Ascenty, ODATA, Elea, Grupo FS e Tecto Data Centers vêm ampliando ou planejando novas instalações em território nacional.

São investimentos significativos, mas que ainda não refletem todo o potencial do país diante de sua escala de mercado e vantagens estruturais. O potencial que ainda não se converteu O Brasil reúne condições únicas: é o maior mercado da América Latina, possui matriz elétrica majoritariamente renovável e conta com demanda crescente por serviços digitais e de IA. Ainda assim, há um descompasso entre esse potencial e o volume de investimentos efetivamente direcionados a datacenters especializados em IA.

A principal explicação segue sendo a insegurança jurídica. Sem a consolidação do Redata e sem um marco regulatório estável, decisões de longo prazo acabam sendo adiadas ou redirecionadas para países vizinhos. Infraestrutura local, soberania e conformidade. A discussão sobre datacenters de IA também passa por soberania digital e compliance.

Setores como Financeiro, de Saúde, Farmacêutico e Governamental operam sob regras rígidas de proteção de dados, especialmente a Lei Geral de Proteção de Dados.

Processar informações sensíveis fora do país pode gerar riscos jurídicos e operacionais. A existência de infraestrutura local robusta reduz esses riscos, aumenta o controle sobre dados estratégicos e fortalece a autonomia tecnológica do país.

O que merece atenção a partir de agora

O avanço da tramitação do Redata, sua eventual consolidação no PL da Inteligência Artificial e a continuidade dos anúncios de investimentos serão determinantes para o posicionamento do Brasil no mapa global da IA. Mais do que uma discussão técnica, trata-se de uma decisão estratégica.

O país pode se afirmar como polo regional de processamento avançado ou aceitar um papel secundário em uma economia cada vez mais orientada por dados e algoritmos.

Sérgio Larentis é COO da MATH Group

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