Microsoft diz que IA entrou na era do retorno e aposta em força de trabalho para destravar os próximos R$ 14,7 bilhões

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10 June 2026; Priscyla Laham, President, Brazil, Microsoft, on Centre Stage during day two of Web Summit Rio 2026 at Riocentro in Rio de Janeiro, Brazil. Photo by Oisin McHugh/Web Summit via Sportsfile

Durante boa parte dos últimos dois anos, o avanço da inteligência artificial foi acompanhado por uma pergunta recorrente: quem conseguirá transformar o entusiasmo em resultado concreto. No Web Summit Rio 2026, a Microsoft levou ao palco um sinal de que, na visão da companhia, o mercado começa a entrar em uma nova etapa.

Durante o painel "R$ 14.7 billion in – and counting", realizado no Center Stage, Priscila Laham, presidente da Microsoft Brasil, defendeu que a inteligência artificial deixou de ser tratada como uma frente experimental para se tornar um elemento estrutural de competitividade, capaz de influenciar decisões de investimento, arquitetura tecnológica e transformação operacional das empresas.

Ao comentar o investimento anunciado pela companhia de aproximadamente R$ 14,7 bilhões em infraestrutura no Brasil, a executiva afirmou que a decisão ocorreu no fim de 2024 e representou o maior investimento já realizado pela empresa no país em seus 37 anos de operação local.

Segundo ela, o movimento foi sustentado por uma leitura objetiva sobre demanda.

"Existe um pouco de hype nessa história, mas nós realmente acreditamos em expansão da capacidade humana. Quando olhamos a demanda que já estamos vendo, sabemos que novos datacenters ainda precisarão ser construídos", afirmou.

Para Microsoft, IA deixa de ser feira de ciência e entra na agenda de negócio

Ao longo da conversa, Priscila fez uma distinção entre empresas que usam IA como experimento e organizações que começam a incorporar a tecnologia como mecanismo de transformação.

Na avaliação da executiva, muitas iniciativas ainda fracassam porque partem da ferramenta e não do objetivo estratégico.

"Quando vira uma feira de ciência, onde todo mundo está fazendo projeto sem pensar no negócio, você não captura retorno. Mas quando vem do topo, como estratégia e ferramenta de mudança, as empresas já começam a capturar resultado", afirmou.

Segundo dados compartilhados pela executiva a partir de estudo realizado pela Microsoft em parceria com a IDC, que ouviu aproximadamente cem executivos brasileiros, 90% dos C-levels no Brasil já enxergam inteligência artificial como fator de competitividade.

Mas existe um entrave.

Embora reconheçam o potencial da tecnologia, parte dessas lideranças ainda não está disposta a redesenhar processos.

"Se você colocar IA em processos ruins, não haverá benefício", afirmou.

O novo gargalo da IA não é tecnologia, é adaptação humana

Um dos temas mais recorrentes da apresentação foi a ideia de que o principal ativo das empresas continua sendo humano.

Segundo Priscila, grande parte da inteligência corporativa não está armazenada apenas em sistemas, mas distribuída na força de trabalho.

Por isso, a companhia passou a defender o conceito de Intelligence Gap, definido como a diferença entre a inteligência disponível dentro das organizações e aquilo que efetivamente é convertido em decisão e execução.

Na visão da executiva, reduzir esse intervalo exige acesso às ferramentas, requalificação e revisão dos modelos de trabalho.

Como parte dessa estratégia, a Microsoft ampliou investimentos em formação profissional.

Segundo ela, iniciativas de capacitação já alcançaram mais de 6 milhões de pessoas, enquanto somente nos últimos meses cerca de 40 mil colaboradores de clientes receberam treinamento direto da companhia.

"Existe hoje mais demanda por profissionais preparados do que pessoas qualificadas para ocupar essas posições", afirmou.

Microsoft aposta em agentes e prevê profissionais chegando ao mercado acompanhados por IA

Ao discutir o futuro do trabalho, Priscila apresentou uma visão que começa a aparecer com mais frequência entre grandes empresas de tecnologia.

Segundo ela, profissionais passarão gradualmente a ser avaliados não apenas pelas próprias competências, mas também pelos agentes que utilizam.

"Você não compra mais apenas um profissional de marketing. Você compra uma pessoa que chega acompanhada de habilidades específicas e agentes que ampliam sua capacidade de entrega", afirmou.

Na avaliação da executiva, o currículo profissional tende a incorporar gradualmente novas competências ligadas à interação e orquestração de agentes.

Brasil tenta capturar mais valor do que apenas infraestrutura

Questionada sobre o risco de o país se tornar apenas fornecedor de energia, dados e capacidade computacional para a corrida global da IA, Priscila afirmou que a oportunidade brasileira vai além da infraestrutura.

Segundo ela, existem três fatores que colocam o país em posição competitiva: população digitalizada, pressão histórica por produtividade e um ecossistema robusto de desenvolvimento.

A executiva destacou que o Brasil já reúne aproximadamente 5 milhões de desenvolvedores ativos no GitHub, número que, na visão da companhia, representa uma base relevante para construção de novos negócios.

"Inteligência artificial é ecossistema", afirmou.

IA entra na era do FinOps e empresas começam a escolher modelos como escolhem investimentos

Outro ponto que ganhou destaque foi a evolução da discussão sobre custo.

Segundo Priscila, depois do movimento de FinOps em nuvem, o mercado começa a entrar em uma nova etapa: AI FinOps.

Na avaliação da executiva, organizações precisarão escolher modelos com base em custo, desempenho e adequação ao negócio.

A Microsoft afirmou que hoje disponibiliza aproximadamente 11 mil modelos dentro da plataforma Foundry, permitindo que clientes escolham diferentes combinações de preço e funcionalidade.

"Não precisamos mais discutir qual é o modelo da moda. Precisamos escolher o mais adequado para cada necessidade", afirmou.

Ao encerrar o painel, Priscila deixou uma recomendação que sintetizou boa parte da conversa.

Segundo ela, acompanhar a velocidade da transformação exige menos ansiedade e mais disciplina.

"Continue estudando, mantenha pensamento crítico e não perca o foco", concluiu.