
Por Carolina Zanchetta Vargas – A recente proposta de aquisição que coloca a Netflix no centro da compra dos ativos de estúdio e streaming da Warner Bros. Discovery (com oferta anunciada em dezembro de 2025) marca um novo capítulo de concentração no ecossistema audiovisual. Se, por um lado, estamos diante de uma possível combinação que promete escala, bibliotecas icônicas e sinergias tecnológicas, por outro, há riscos concretos para a economia criativa, para a experiência do consumidor e para a diversidade de vozes no conteúdo.
Como executiva que atua tanto na distribuição de conteúdo quanto na criação e operação de um canal infantil cujo público exige cuidado editorial e janelas de exibição específicas, vejo implicações práticas que não podem ficar restritas a debates financeiros ou a manchetes. A compra em questão não é apenas um movimento entre gigantes, ela muda a arquitetura de incentivos da indústria e a forma como conteúdos chegam ao público, especialmente para nichos vulneráveis como a programação infantil.
Primeiro ponto: poder de mercado e negociação com plataformas e operadores. Uma Netflix com o porte combinado às franquias e estúdios da Warner altera substancialmente o balanço de poder nas negociações com distribuidores, operadoras de TV paga e provedores de infraestrutura. Isso pode provocar duas dinâmicas perigosas: 1 – redução da concorrência em licenciamento de conteúdos, elevando os custos para programadores independentes e para canais lineares, e, 2- pressão por exclusividade, o que fragiliza janelas tradicionais, prejudicando produtores independentes e exibidores.
Segundo ponto: o impacto sobre a experiência de exibição e o ecossistema cinematográfico. A concentração de títulos “blockbuster” numa única plataforma tende a reduzir opções de lançamento e a enfraquecer a diversidade de estratégias de janelas, algo que tem consequências para salas de cinema, para festivais e para toda a cadeia de valor do filme.
Terceiro ponto: concorrência e propostas alternativas. Não é surpresa que concorrentes e atores institucionais tenham reagido de forma contundente, inclusive com ofertas rivais apontando para alternativas estratégicas e preocupações regulatórias elevadas. A própria dinâmica de contra-ofertas torna o processo ainda mais incerto, com efeitos sobre empregos, ativações de marcas e operações jornalísticas (no caso de conglomerados que abrigam canais de notícia). A incerteza regulatória será um elemento chave nos próximos meses
Mas há também argumentos a favor, que precisam ser ponderados com rigor. A consolidação pode gerar investimentos em produção de alto padrão, plataformas tecnológicas mais eficientes e maior alcance global para franquias que, de outra forma, teriam janelas fragmentadas. Para alguns produtores, a possibilidade de acesso direto a uma audiência global e a orçamentos maiores é o que torna mais atraente. O ponto de equilíbrio é que ganhos de escala não se transformem em monopólio de distribuição de narrativas.
Como proprietária de um canal infantil que aposta em acessibilidade e inclusão e, como executiva responsável por acordos de distribuição, penso que algumas providências são urgentes:
- Transparência nas janelas de exibição e contratos de exclusividade — que mantenham espaço para canais lineares e OTTs independentes, evitando cláusulas que estrangulem a circulação de conteúdo para públicos específicos (crianças, idosos, comunidades locais).
- Reforço das regras de competições e revisão de fusões — com critérios que avaliem impacto cultural e não apenas financeiro. A análise “anti-trust” deve considerar mercado criativo e cadeia de valor editorial.
- Mecanismos de suporte a produção local — fundos, cotas ou incentivos que garantam que produção nacional e regional não seja suplantada por catálogo global em nome da eficiência.
- Proteções para o ecossistema cinematográfico e exibidoras — garantindo janelas mínimas quando relevantes e incentivos para lançamento em salas.
A indústria de mídia vive um momento de reinvenção, e isso é saudável quando conduzido de forma a fortalecer a pluralidade, não a concentrá-la. Investimento e modernização são bem-vindos, concentração absoluta de conteúdo e distribuição, não. Reguladores, produtores, exibidores e distribuidores precisam agir em conjunto para que o resultado seja um mercado vibrante, competitivo e diverso em que inovação não signifique fechamento de portas para vozes locais, para a sala de cinema ou para canais que falam diretamente a comunidades específicas, como a educação infantil.
Carolina Zanchetta Vargas é sócia-fundadora da Stenna, empresa brasileira de serviços para canais de TV e projetos audiovisuais, idealizadora do canal infantil DumDum e Vice-Presidente de Distribuição da CNBC no Brasil.
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