Redata: por que o timing importa para o Brasil

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O Redata tem sido analisado sob diferentes ângulos, mas a discussão mais relevante ainda é pouco explorada: o alinhamento entre o timing dos investimentos em infraestrutura digital e a transição do sistema tributário brasileiro.

Victor Arnaud, presidente da Equinix no BrasilVictor Arnaud, presidente da Equinix no Brasil, escreve todo fim de mês no Tele.Síntese a Coluna do Arnaud, em que trata de infraestrutura digital e tendências em TICs.

A Reforma Tributária já aprovada aponta para um modelo mais neutro, que desonera o investimento e tributa o consumo. O desafio está no intervalo entre a decisão e a execução. As decisões de investimento em data centers e infraestrutura de IA estão sendo tomadas agora, enquanto os efeitos plenos da reforma só se materializam ao longo da próxima década. É nesse espaço que o Redata se insere: como uma ponte temporária entre um sistema atual, com assimetrias conhecidas, e outro mais racional.

Do ponto de vista de CAPEX, o regime é eficaz. Data centers são intensivos em capital e penalizados pelo modelo atual, que tributa fortemente bens de capital e equipamentos importados. Ao reduzir PIS, Cofins, IPI e o imposto de importação, o Redata antecipa parte da neutralidade que a própria reforma promete. Sob essa ótica, o debate deixa de ser sobre benefício setorial e passa a ser sobre coerência institucional e previsibilidade econômica.

O regime foi concebido para convergir com os princípios já aprovados da Reforma Tributária, antecipando, de forma transitória, a neutralidade que o novo sistema pretende oferecer de forma estrutural. Não se trata de criar uma exceção permanente, mas de alinhar os incentivos ao modelo que o próprio país decidiu adotar.

No caso dos equipamentos, o ICMS permanece um componente relevante da equação. A diferença, desta vez, está no ambiente institucional. Há uma mobilização concreta e positiva de diversos estados para viabilizar projetos associados ao Redata. Esse movimento aponta para um entendimento mais maduro: competir por infraestrutura digital exige coordenação federativa, previsibilidade e sinalização clara de longo prazo.

Na energia, o debate relevante não é tributário, e sim estrutural. O custo, a previsibilidade e, sobretudo, o acesso ao sistema elétrico continuam sendo fatores críticos de decisão. Esse ponto ficou ainda mais explícito com o Decreto nº 12.772/2025, que instituiu a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão. O novo modelo substitui a lógica de filas permanentes por temporadas de acesso, com análise coordenada pelo ONS, processos competitivos quando a demanda supera a capacidade disponível e maior transparência sobre as restrições da rede. O avanço institucional é relevante, mas deixa claro que a MP do Redata, por si só, não cria energia nem transmissão.

As contrapartidas do regime seguem a lógica correta: P&D no Brasil, oferta mínima ao mercado interno e padrões ambientais elevados. O ponto de atenção está na execução. Sem métricas claras, governança e fiscalização, as contrapartidas tendem a se reduzir ao cumprimento formal, e não a uma transformação estrutural do ecossistema.

O Redata não resolve todos os gargalos e nem deveria. Ele não é um atalho, é um ajuste de tempo. Seu papel é impedir que o Brasil perca a janela de investimento atual enquanto ajusta seu sistema tributário e organiza sua agenda energética.

Com uma reforma já contratada, coordenação federativa em curso sobre equipamentos e um novo marco de acesso à transmissão, o país começa a alinhar peças que, historicamente, caminharam desconectadas. E as escolhas públicas, especialmente em infraestrutura, sempre produzem trajetórias difíceis de reverter. O risco real não está em antecipar a neutralidade tributária. Está em chegar atrasado a um jogo que não espera sistemas perfeitos, apenas decisões coerentes.

No fim, o debate deixa de ser sobre rótulos e passa a ser sobre escolhas.

Em infraestrutura, escolhas raramente são neutras: definem quem constrói, quem atrai investimento e quem fica à margem das grandes transformações. O Redata insere-se exatamente nesse ponto de decisão.

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