Redes autônomas avançam com promessa de cortar custos e otimizar operações das teles

há 15 horas 3

As operadoras de telecomunicações avançam na adoção de redes autônomas como resposta ao aumento da complexidade operacional provocado pela expansão do 5G, pela explosão de dispositivos conectados e pela crescente demanda por serviços digitais. Mais do que uma tendência tecnológica, a autonomia das redes começa a ser tratada pelo setor como um caminho necessário para reduzir custos operacionais, ampliar eficiência e sustentar novos modelos de negócio.

CONTEÚDO RELACIONADO – Ericsson prevê redes móveis autônomas e automatizadas para sustentar avanço da IA

A transformação ocorre em um momento de forte pressão sobre as teles. O crescimento contínuo do tráfego de dados, a busca por experiências digitais sem interrupções e a expansão de aplicações de baixa latência exigem redes mais inteligentes, resilientes e capazes de operar com mínima intervenção humana. Nesse cenário, cresce o uso de inteligência artificial, analytics e automação avançada para permitir que as redes detectem falhas, tomem decisões e executem ações automaticamente em tempo real.

Segundo Alexandre Restani, Presales Manager of Engineering, Research & Development for Telecommunications da Capgemini, as operações tradicionais já não conseguem acompanhar o nível atual de complexidade das infraestruturas de telecomunicações. “Com a chegada do 5G, da IoT e das arquiteturas cloud-native, a operação manual simplesmente não escala mais”, afirma o executivo.

Estudos da Capgemini mostram que iniciativas de redes autônomas já proporcionam ganhos financeiros e operacionais relevantes. Entre os resultados observados estão aumento superior a 20% na eficiência operacional, redução de 18% nos custos operacionais (OpEx) em até dois anos e queda de até 71% no consumo de energia por meio de otimizações orientadas por inteligência artificial.

Apesar do avanço, a maior parte das operadoras ainda está em estágios iniciais de autonomia. Dados citados pela empresa apontam que 84% das teles globais permanecem em níveis básicos de automação, enquanto mais de 60% pretendem atingir níveis avançados de autonomia até 2028.

A evolução das redes autônomas está diretamente ligada ao uso de IA embarcada em diferentes camadas da infraestrutura, incluindo core, RAN, transporte, OSS e edge computing. Uma das principais apostas do setor é a chamada IA Agêntica, baseada em agentes inteligentes capazes de monitorar ambientes, detectar anomalias, executar ações corretivas e otimizar recursos sem necessidade de intervenção manual.

Esses sistemas utilizam modelos de machine learning e deep learning para viabilizar manutenção preditiva, detecção proativa de falhas, autorrecuperação das redes, otimização dinâmica de tráfego e gerenciamento inteligente de capacidade. Outro elemento importante é a adoção de arquiteturas programáveis e cloud-native, apoiadas em tecnologias SDN e NFV, que permitem automação de ponta a ponta e operações em closed loop.

Segundo Bruno Moreira, presidente da BMC Helix Brasil (foto), as operações autônomas e centradas no cliente estão rapidamente se tornando o novo padrão das telecomunicações. “A velocidade e os modelos de suporte mudaram. Os consumidores esperam respostas imediatas e resolução praticamente instantânea dos problemas”, afirma.

Para o executivo, a IA também transforma a relação entre operadoras e clientes, viabilizando experiências mais simples, rápidas e personalizadas. Ferramentas de autoatendimento digital, chatbots com linguagem natural, suporte automatizado em múltiplos canais e monitoramento contínuo dos serviços passam a integrar a estratégia das teles na busca por maior eficiência operacional e melhoria da jornada dos usuários.

A expansão do 5G ampliou significativamente a necessidade de automação nas redes de telecomunicações. Além do crescimento do volume de tráfego, as operadoras precisam lidar com aplicações críticas que exigem baixa latência e alta disponibilidade, como automação industrial, IoT (internet das coisas), veículos conectados e serviços digitais em tempo real.

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta margens pressionadas, aumento da concorrência e necessidade de diversificar receitas para áreas como nuvem, edge computing e serviços digitais. Nesse contexto, a redução de custos operacionais se tornou prioridade estratégica para as teles.

Especialistas avaliam que os projetos de redes autônomas tendem a começar por áreas com retorno financeiro mais rápido, como eficiência energética, automação de RAN, redução de falhas e melhoria da experiência do cliente.

O Brasil, porém, ainda enfrenta desafios importantes para acelerar essa transformação. Entre eles estão a coexistência de sistemas legados e ambientes multivendor, a dificuldade de integração de dados, a escassez de profissionais especializados em IA e automação, além das exigências regulatórias relacionadas à governança de dados e conformidade com a LGPD. A própria Anatel já discute diretrizes relacionadas ao uso de inteligência artificial no setor de telecomunicações.

Segundo Restani, o papel dos engenheiros de telecom também tende a mudar nos próximos anos. “A engenharia deixa de ser apenas configuração e troubleshooting e passa a projetar sistemas capazes de se autogerenciar”, afirma.

A expectativa do setor é que os centros de operação de rede evoluam para ambientes cada vez mais automatizados, com menor necessidade de intervenção humana e operações amplamente orientadas por inteligência artificial. Na avaliação dos especialistas, as operadoras que avançarem mais rapidamente nessa jornada terão vantagens competitivas importantes em eficiência, redução de custos, sustentabilidade e capacidade de inovação.

Participe das comunidades IPNews no InstagramFacebookLinkedIn e X