Telecom busca contratar mais mulheres por resultado, não por acaso, diz Luciana Tannure

há 1 mês 17

A engenheira elétrica Luciana Tannure, com 30 anos de atuação no mercado de telecomunicações, avalia que o aumento da presença feminina no setor não é um movimento natural. Em entrevista ao TV Síntese, ela afirmou que a contratação e promoção de mulheres em telecom resultam de decisões estratégicas ligadas a governança, sustentabilidade e metas de diversidade. “Eu acho que não é orgânico. Eu acho que o mundo de telecom se move muito por resultados”, resumiu.

Coordenadora do livro Mulheres em Telecom (Ed. Leader, 2024), Tannure explicou que vê, hoje, mais mulheres em equipes e projetos do que no início da carreira, embora não disponha de estatísticas específicas para o segmento. “Pela distribuição ali visual, eu acho que a gente chega numa condição melhor. Em torno de, talvez, 40%”, estimou, ao comparar cenário atual com o ambiente majoritariamente masculino encontrado no início dos anos 1990.

ESG e conselhos trazem diversidade para a agenda das operadoras

Na avaliação de Tannure, o ponto de partida do movimento de contratação de mais mulheres em telecom está nas decisões dos conselhos de administração e nas diretrizes de ESG. “Eu acho que tem uma questão do ESG se limitar, de uma postura social. Isso daí vem muito das definições de conselho das empresas para as autodireções e para projetos afirmativos”, afirmou.

Ela cita programas corporativos que explicitam o objetivo de ampliar a presença feminina em cargos de liderança. Na leitura de Tannure, a lógica econômica do mercado ajuda a explicar por que esse movimento ocorre.

“O setor de telecom naturalmente é movido a resultados. No final da conta, é um movimento pelo lucro. E é certo isso. Não é errado”, avaliou. A diversidade, incluída nas políticas de ESG, entra como um dos fatores que sustentam esse desempenho, ao lado de temas ambientais e sociais, como mudança de matriz energética, projetos de escolas conectadas e compromissos de governança.

Equidade de gênero como ativo de negócios, não concessão

Ao tratar da contratação de mais mulheres, Tannure evita a leitura de concessão ou mera correção simbólica. Ela vincula diretamente a diversidade de gênero à qualidade das decisões estratégicas. “Por que igualdade de gênero? É porque a gente consegue trazer a diversidade de um pensamento crítico para dentro das discussões das empresas”, explicou.

Segundo ela, a presença feminina em conselhos e lideranças contribui para debates mais amplos em temas centrais para as operadoras, como projetos de banda larga, redes móveis e inovação. “No momento que falam em tecnologia, na tecnologia mais pura, na parte técnica mais pura é para trazer justamente esse pensamento mais amplo, diversificado, e que possa construir novos caminhos, chegar ao consenso passando pelo dissenso”, afirmou.

Tannure relaciona essa visão ao debate global sobre paridade. Ela mencionou o relatório deste ano do Fórum Econômico Mundial que projeta mais de um século até a igualdade plena entre homens e mulheres. “Estima que o mundo levará 123 anos para alcançar a paridade de crime entre homens e mulheres. Eu acho que isso aí não faz nenhum sentido”, comentou.

Apesar disso, reforça que sua defesa é por equidade, e não por antagonismo. “Eu quero só ter mais possibilidades iguais. Não é a questão de competição. É a questão de cooperação”, disse.

Mercado se move por metas, enquanto barreiras sociais persistem

Questionada se o aumento das mulheres em telecom é consequência de transformação cultural espontânea ou de uma busca consciente por resultados, Tannure é direta ao apontar o segundo caminho. “O setor de telecom naturalmente é movido a resultados”, reiterou, ao destacar que empresas intensivas em capital e infraestrutura são pressionadas por investidores e por indicadores de mercado.

Ao mesmo tempo, ela reconhece que a contratação e promoção de mais mulheres convivem com barreiras estruturais sociais. Tannure cita a sobrecarga de papéis sociais atribuídos às mulheres e o peso da maternidade na tomada de decisões de carreira, inclusive em oportunidades internacionais.

Sobre a participação feminina em telecom, Tannure vê na produção do livro Mulheres em Telecom uma forma de tornar visível parte dessa transformação, uma vez que faltam dados específicos sobre o tema. A obra registra trajetórias e experiências profissionais e busca funcionar como referência para novas gerações.

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