Árvores, fios e apagões: um problema urbano que o vento só revela

há 4 semanas 39
fiosLuiz Henrique Barbosa da Silva

Os recentes vendavais que atingiram a cidade de São Paulo, deixando milhares de pessoas sem energia elétrica por dias (situação ainda em andamento quando escrevo este texto), não podem ser tratados como meros eventos climáticos extremos ou fatalidades inevitáveis. Eles funcionam, na verdade, como um teste de estresse de um modelo urbano construído sobre improvisos, decisões de curto prazo e ausência de coordenação estrutural.

Quando árvores caem e rompem redes aéreas de energia e telecomunicações, o problema não é apenas o vento, mas sim a exposição deliberada de infraestruturas críticas em um ambiente urbano que nunca foi pensado para conviver com elas de forma resiliente.

Há décadas se conhece a principal solução técnica: o enterramento das redes. Países e cidades que planejaram seu crescimento urbano com visão de longo prazo reduziram drasticamente a vulnerabilidade a intempéries, melhoraram a paisagem urbana e aumentaram a confiabilidade dos serviços essenciais. No Brasil, porém, essa solução sempre foi tratada como "cara demais", sem que se faça a conta completa do custo da não decisão.

Enterrar redes de forma eficiente e economicamente viável não é uma decisão isolada de engenharia. Exige planejamento urbano integrado, com definição clara de uso do solo, padronização de calçadas, corredores técnicos subterrâneos e coordenação entre os diversos operadores de infraestrutura: energia, telecomunicações, saneamento e gás. O problema é que esse tipo de planejamento raramente é priorizado.

O pensamento dominante tem sido de curto prazo. Cidades adensam rapidamente para ampliar arrecadação, flexibilizam parâmetros urbanísticos, vendem CEPACs, aprovam exceções pontuais e deixam que o crescimento ocorra de forma fragmentada. A conta aparece depois: ruas congestionadas, redes sobrepostas, obras sucessivas e uma infraestrutura cada vez mais cara de adaptar.

O drama não se limita à fiação aérea. Ele começa no nível mais elementar do urbanismo. O plantio de árvores nas cidades, por exemplo, frequentemente ignora critérios técnicos. Espécies inadequadas para ambientes urbanos são colocadas em calçadas estreitas, com raízes agressivas que comprometem o subsolo, interferem em redes enterradas, drenagem e pavimentação. Soma-se a isso um manejo insuficiente, marcado por orçamentos instáveis, ausência de inventário arbóreo atualizado e ações reativas, em vez de preventivas.

As calçadas, por sua vez, raramente são pensadas como infraestrutura pública estratégica. São estreitas, irregulares, sem padronização de materiais e cotas, o que inviabiliza tanto a acessibilidade quanto a convivência organizada entre pedestres, árvores e redes técnicas. Quando surge a necessidade de intervenção, entram em cena restrições operacionais excessivas: licenças demoradas, janelas de execução reduzidas, limitações de horário, dificuldades logísticas para movimentação de máquinas e caminhões em áreas densamente ocupadas.

O resultado é um paradoxo conhecido: planejar custa, mas improvisar custa muito mais. Enterrar redes após décadas de ocupação desordenada pode custar múltiplos do que teria custado se feito de forma coordenada desde o início. Ainda assim, insiste-se em postergar decisões estruturais, optando por remendos sucessivos que apenas transferem o problema para o futuro.

Urbanismo, no entanto, não pode ser tratado como o plano do governo da ocasião. Cidades são projetos intergeracionais. Exigem visão técnica, continuidade administrativa e respeito a planos que sobrevivam a mandatos eleitorais. E é exatamente por isso que seria desejável e, até necessário, que essa discussão permeasse de forma séria os debates eleitorais do próximo ano, indo além de slogans e promessas genéricas.

Planejamento urbano, resiliência climática e infraestrutura crítica deveriam estar no centro das plataformas, acompanhados de compromissos claros com ações concretas, cronogramas e fontes de financiamento. Caso contrário, é quase certo que, daqui a um ano, estaremos com mais um longo artigo (textão) sobre os mesmos problemas, após o próximo vendaval.

Esse debate precisa ganhar escala e coordenação nacional. É fundamental que o País construa diretrizes federais claras, envolvendo ministérios como Cidades, Meio Ambiente, Minas e Energia e Comunicações, entre outros, capazes de orientar o planejamento urbano, o manejo arbóreo e a modernização das infraestruturas críticas. A execução deve ser local, respeitando as especificidades de cada município, mas acompanhada por metas de longo prazo, indicadores públicos, transparência e prestação de contas.

Sem coordenação federativa e compromisso político de longo prazo, continuaremos reagindo a vendavais como se fossem surpresas. Com planejamento, eles passam a ser apenas mais um fenômeno natural e não uma ameaça recorrente à vida urbana e aos serviços essenciais, que impactam tantas vidas.

* Sobre o autor – Luiz Henrique Barbosa da Silva é presidente executivo da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a visão de TELETIME. 

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