O mercado de telecom no Brasil à beira de uma nova curva

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Carlos Eduardo Sedeh, CEO da SAMMCarlos Eduardo Sedeh Foto: Divulgação

O setor de telecomunicações brasileiro vive um momento de transição silenciosa, mas estrutural. A velha disputa por cobertura e conectividade já não é mais o centro. O novo desafio é atender demandas por velocidade real, infraestrutura inteligente e dados processados com proximidade e eficiência. A conectividade deixou de ser luxo: tornou-se insumo básico – e quem souber preparar essa transição terá vantagem.

Segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o Brasil encerrou 2024 com cerca de 346,9 milhões de acessos nos principais serviços de telecomunicações, incluindo telefonia móvel e fixa, banda larga fixa e TV por assinatura. No segmento de banda larga fixa, observa-se um movimento consistente de migração para a fibra óptica. Levantamentos da Anatel e de consultorias especializadas como a Teleco indicam que, em 2025, aproximadamente 73% dos acessos fixos já utilizam tecnologia FTTH (Fiber to the Home), refletindo a preferência do mercado por conexões mais estáveis e de maior capacidade.

Mesmo diante de um cenário macroeconômico desafiador, o setor manteve dinamismo. De acordo com análises de mercado divulgadas pela Teleco e pela IDC Brasil, o segundo trimestre de 2025 marcou o melhor desempenho do segmento móvel nos últimos cinco anos, com crescimento expressivo no número de acessos, impulsionado também pela expansão de aplicações de Internet das Coisas (IoT) em setores como indústria, agronegócio e serviços.

Por outro lado, embora a banda larga fixa siga em trajetória de expansão, analistas do setor ouvidos por relatórios da IDC e da Omdia avaliam que o ritmo de crescimento em 2025 foi moderado, ficando abaixo dos patamares observados em anos anteriores, especialmente após o pico de investimentos registrado durante e no pós-pandemia.

Esses dados indicam que, mesmo em um contexto de recuperação econômica lenta, o setor de telecom no Brasil mantém resiliência e relevância — sustentado por demanda permanente por conectividade, digitalização e adaptação tecnológica.

Tendências e expectativas para 2026–2028

Com base nos movimentos do mercado e nas projeções setoriais, algumas tendências devem definir o ritmo da telecom no Brasil nos próximos anos:

1. Consolidação da fibra óptica e expansão da infraestrutura fixa de alta capacidade: A migração para fibra continua acelerada. A demanda por streaming, trabalho remoto, serviços corporativos, cloud e demais aplicações aumenta. Isso exige não apenas cobertura, mas capacidade e qualidade de rede, com fibra como base – e não mais exceção.

2. 5G e redes convergentes ganhando escala real: O avanço da cobertura 5G, aliado à infraestrutura de fibra no backhaul, deve permitir a consolidação de aplicações que dependem de baixa latência e alta confiabilidade: IoT, automação, smart cities, telemedicina, entre outros. A conectividade móvel deixa de ser apenas acesso – vira plataforma de serviços e dados.

3. Transição de conectividade como commodity para conectividade como plataforma de serviços: Com saturação relativa do mercado de acesso puro (voz e banda larga), operadoras e provedores tendem a focar em serviços de valor agregado: nuvem, hospedagem, soluções corporativas, redes privadas, data centers, segurança, serviços gerenciados. A conectividade será a base – não o produto final.

4. Interiorização e democratização da infraestrutura: Ainda existem municípios sem backbone de fibra – em 2024, mais de mil cidades não tinham cobertura adequada de backhaul, segundo levantamentos recentes. Esse cenário impulsiona o crescimento de provedores regionais e PPPs (provedores de pequeno porte), mais próximos da realidade local e das necessidades territoriais – parte da estratégia para reduzir desigualdades de conectividade e apoiar o desenvolvimento regional.

5. Competição mais sofisticada e diversificação de modelos de negócio: Com o avanço da tecnologia e da complexidade da demanda, o mercado tende a se reorganizar: grandes operadoras mantêm escala, mas provedores regionais e nichados ganham espaço atendendo segmentos específicos – empresas, indústrias, governos, setores verticais. A oferta deixa de ser "plano genérico" e vira solução sob medida.

O que isso significa para empresas, investidores e reguladores? Para empresas que dependem de conectividade e dados (indústria, logística, agronegócio, fintechs, serviços): será essencial repensar infraestrutura com o olhar da proximidade e da capacidade computacional local. A conectividade sozinha já não basta – é preciso performance, latência baixa e confiabilidade.

Para investidores e provedores de telecom: a oportunidade está – e continuará – nas soluções integradas, não em "apenas banda larga". Fibra, data centers regionais, redes híbridas, serviços gerenciados e segurança se tornam ativos estratégicos.

Para quem formula políticas públicas e regulamentações: garantir que a expansão da infraestrutura acompanhe a demanda por dados e inovação será chave – com incentivos para interiorização, competição saudável e soberania digital.

O mercado de telecom no Brasil não está apenas em expansão – está em transformação. A próxima década vai definir não quem entrega acesso, mas quem entrega infraestrutura com solidez, inteligência e proximidade. A conectividade deixou de ser diferencial. Tornou-se base.

Para 2026 e além, a disputa será por velocidade real, confiabilidade, latência mínima, infraestrutura distribuída e serviços integrados. Quem souber enxergar isso primeiro –  e agir – estará à frente. O país que dominar essa transição poderá não apenas conectar, mas decidir seu futuro digital. O resto será apenas trânsito de dados.

* Sobre o autor – Carlos Eduardo Sedeh é CEO da SAMM. As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a visão de TELETIME.

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