Empreendedores da conectividade: a força dos ISPs na transformação digital do Brasil

há 3 dias 7

Sem conectividade com a internet, a economia brasileira hoje simplesmente para. O PIX deixa de funcionar, sistemas corporativos saem do ar, escolas interrompem aulas online, hospitais perdem acesso a plataformas críticas e fazendas conectadas deixam de operar. É esta a responsabilidade de um exército de empreendedores das telecomunicações: os provedores regionais de internet, que hoje dominam a banda larga fixa brasileira e assumem papel central na nova era da inteligência artificial, automação e digitalização da economia.

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Pela definição da Anatel, um provedor de acesso à internet ou ISP (Internet Service Provider) é uma empresa autorizada a fornecer acesso à web para consumidores residenciais, empresas e órgãos públicos por meio de tecnologias como fibra óptica, rádio, satélite e redes móveis. Nos últimos dez anos, essas empresas deixaram de ocupar posição secundária para assumir protagonismo na infraestrutura digital brasileira.

Segundo dados mais recentes da Anatel, o Brasil encerrou 2025 com 53,9 milhões de acessos de banda larga fixa, crescimento de 2,7% em relação ao ano anterior. Informações compiladas pelo Ministério das Comunicações, com base em dados da Anatel e da Ookla, indicam que os provedores respondem hoje por quase 60% da banda larga fixa nacional.

Esse avanço colocou o Brasil em posição de destaque global em conectividade. Dados do Speedtest Global Index, da Ookla, divulgados em maio de 2026, apontam o país na 26ª posição mundial em banda larga fixa, com velocidade média de 221,53 Mbps.

Os bandeirantes digitais

Por trás desses indicadores existe um movimento fortemente impulsionado pelo empreendedorismo regional. Em milhares de cidades brasileiras, especialmente fora dos grandes centros, pequenos e médios empresários investiram em redes próprias de fibra óptica, atendimento local e expansão acelerada da cobertura. Em muitos municípios, os provedores regionais foram os primeiros a oferecer conexões de alta velocidade.

A própria Anatel reconhece esse papel estrutural. Durante o Abrint Global Congress 2026, o superintendente de competição da Agência, José Borges, destacou que o histórico regulatório brasileiro permitiu “uma expansão privada sem precedentes, levando conectividade a regiões onde antes não havia interesse econômico das grandes operadoras”.

O fenômeno alterou profundamente a estrutura das telecomunicações brasileiras. Segundo a Anatel, o Brasil reúne mais de 19 mil empresas autorizadas a operar SCM (Serviço de Comunicação Multimídia) – a categoria reservada aos provedores de acesso. Borges defende que essa fragmentação ampliou a concorrência e aumentou as opções para o consumidor.

Digitalização nacional

Trata-se de uma transformação que acompanha o próprio avanço da economia digital brasileira. Dados do IBGE divulgados em março de 2026 mostram que o setor de Informação e Comunicação cresceu 6,5% ao longo de 2025, consolidando-se como um dos motores da economia nacional.

Na indústria, a digitalização já se tornou estrutural. Segundo a Pintec Semestral 2024, divulgada pelo IBGE, 100% das indústrias brasileiras com mais de 100 funcionários utilizam informação digital em pelo menos uma área do negócio, enquanto 89,1% já adotam tecnologias como computação em nuvem, inteligência artificial, IoT (internet das coisas) e Big Data.

Ao mesmo tempo, cresce a dependência da conectividade em praticamente todos os setores da economia. Pequenos comércios dependem do PIX; indústrias operam sistemas em tempo real; hospitais utilizam telemedicina; fazendas adotam sensores, automação e monitoramento remoto; escolas operam plataformas digitais; empresas migram aplicações para nuvem.

Breno Vale, presidente da Abrint

“O trabalho, a educação, a saúde, o comércio, a inovação e o acesso aos serviços do Estado dependem cada vez mais das redes de telecomunicações e da internet”, afirma Breno Vale, presidente da Abrint.

Nesse contexto, os ISPs deixaram de atuar apenas como operadores de conectividade para assumir posição estratégica na infraestrutura da transformação digital brasileira.

A popularização da inteligência artificial generativa, da automação industrial, do streaming em alta definição e das plataformas em nuvem elevou significativamente a demanda por redes robustas, baixa latência e alta capacidade de processamento de dados.

José Roberto Nogueira, CEO da Brisanet, acredita que essa mudança redefine completamente o papel dos provedores. “O próximo desafio não será apenas entregar conectividade. Será garantir estabilidade, baixa latência e suportar os novos serviços digitais que vão rodar sobre essas redes”, afirmou.

Apesar do amadurecimento, executivos e reguladores reconhecem que o setor ainda enfrenta desafios importantes relacionados a crédito, competição predatória, ocupação de postes, consolidação de mercado e sustentabilidade financeira.

“O mercado amadureceu. Hoje não basta mais abrir rede e esperar o cliente chegar. É preciso vender, treinar equipes e disputar experiência”, afirma Fabiano Busnardo, CEO da Unifique.

Alicerce da inovação

José Roberto Nogueira, CEO da Brisanet

Nogueira, da Brisanet, também alerta para a pressão crescente sobre preços em um ambiente de demanda cada vez mais exigente. “O cliente exige estabilidade, baixa latência e qualidade. E isso exige investimento permanente”, pontua.

Nesse novo cenário, os empreendedores de telecomunicações deixaram definitivamente de vender apenas banda larga. Hoje, sustentam aplicações financeiras instantâneas, operações agrícolas inteligentes, plataformas corporativas em nuvem, serviços públicos digitais, streaming, telemedicina e parte crescente da infraestrutura da inteligência artificial brasileira.

Mais do que conectar pessoas, os provedores de acesso passaram a sustentar o funcionamento da economia digital.

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