A transformação digital dos bancos entrou em uma nova fase. Depois de anos investindo em canais digitais, aplicativos e automação, as instituições financeiras agora enfrentam um desafio mais complexo: transformar inteligência artificial, dados e personalização em vantagem competitiva real.
Essa é uma das principais conclusões do FinFacts 2026, estudo do Google Cloud que chega à sua quinta edição analisando a maturidade digital das instituições financeiras brasileiras. Apresentado por Rafael d'Ávila, Líder de Serviços Financeiros do Google Cloud Brasil, o levantamento mostra um setor que avança rapidamente na adoção de novas tecnologias, mas que ainda precisa superar barreiras estruturais para capturar todo o potencial da inteligência artificial.
Mais do que uma avaliação de funcionalidades digitais, o estudo retrata um mercado pressionado por consumidores cada vez mais exigentes, pela evolução regulatória e pela necessidade de equilibrar eficiência operacional, personalização e segurança.
"O que deixou de ser o futuro passou a ser o presente do setor financeiro", resumiu Rafael durante a apresentação.
O peso dos sistemas legados sobre a eficiência bancária
O ponto de partida do estudo é um paradoxo que vem preocupando o setor financeiro global.
Embora os bancos invistam cerca de US$650 bilhões por ano em tecnologia, a produtividade da indústria apresentou queda ao longo da última década. Segundo Rafael, o fenômeno está diretamente relacionado à complexidade operacional acumulada pelas instituições ao longo dos anos.
Boa parte dos bancos tradicionais ainda opera sobre estruturas tecnológicas construídas em momentos diferentes, utilizando sistemas que nem sempre compartilham informações entre si. São plataformas responsáveis por sustentar operações críticas (como contas correntes, crédito, investimentos e segurança), mas que frequentemente funcionam de forma isolada.
Na prática, isso gera experiências fragmentadas para os clientes e limita a capacidade das instituições de oferecer serviços realmente personalizados.
"Quando um banco pede novamente uma informação que já possui, isso é um sinal claro de ineficiência", afirmou. Segundo o executivo, a existência de silos de dados deixou de ser apenas um problema tecnológico e passou a representar uma limitação estratégica para os negócios.
A experiência se tornou o principal diferencial competitivo
A necessidade de modernização se torna ainda mais urgente em um cenário de concorrência sem precedentes. O estudo destaca que existem mais de 31 mil fintechs em operação no mundo, além do avanço de big techs, marketplaces e plataformas digitais que disputam a atenção dos consumidores.
Ao mesmo tempo, 60% dos clientes já preferem contratar produtos financeiros de forma totalmente digital. Nesse contexto, a experiência do usuário passa a ser o principal fator de diferenciação.
"A lealdade deixou de estar associada ao tempo de relacionamento. Hoje ela depende da qualidade da experiência entregue", destacou Rafael.
A mudança é especialmente relevante em um mercado onde consumidores mantêm relacionamento simultâneo com múltiplas instituições financeiras e podem migrar de serviços com poucos cliques.
Open Finance ainda está longe de atingir todo o seu potencial
O estudo também aponta que o Open Finance continua sendo uma das maiores oportunidades de transformação do setor. Apesar da crescente adesão ao modelo, Rafael acredita que o mercado ainda está nos estágios iniciais de captura de valor.
Na avaliação do executivo, existe uma diferença importante entre o sucesso imediato do Pix e a evolução mais gradual do Open Finance. Enquanto o Pix entregou benefícios tangíveis desde o primeiro momento, o compartilhamento de dados depende da capacidade das instituições de transformar essas informações em serviços mais relevantes para os usuários.
"Quando o cliente dá consentimento para compartilhar seus dados, nada acontece imediatamente. O valor surge quando a instituição consegue utilizar essas informações para construir experiências melhores", explica.
Segundo Rafael, a verdadeira revolução do Open Finance acontecerá quando bancos conseguirem combinar dados internos e externos para oferecer recomendações mais inteligentes, jornadas contextualizadas e produtos alinhados às necessidades individuais de cada cliente.
A IA entra em uma nova fase no setor financeiro
Entre as tendências analisadas pelo FinFacts 2026, duas destacam-se pela capacidade de transformar profundamente a relação entre instituições financeiras e consumidores.
A primeira é a evolução da IA multimodal, capaz de compreender texto, voz, imagem, vídeo e documentos simultaneamente. A segunda é o avanço da IA agêntica, formada por sistemas capazes não apenas de responder perguntas, mas também de executar tarefas e tomar decisões de forma autônoma.
Segundo Rafael, esses agentes já começam a ser utilizados em atividades como processamento de crédito, análise documental, prevenção a fraudes e automação de processos operacionais. "Não estamos mais falando apenas de sistemas que respondem perguntas. Estamos falando de sistemas que executam ações."
Apesar disso, o estudo mostra que a maior parte das instituições ainda está em fase de experimentação. Cerca de 75% dos bancos permanecem concentrados em pilotos ou iniciativas isoladas de inteligência artificial.
O estudo mostra uma fotografia do passado recente da IA
Um dos pontos mais interessantes levantados por Rafael durante a coletiva de imprensa foi a velocidade com que a tecnologia evolui.
Segundo ele, os resultados observados pelo FinFacts refletem tecnologias que entraram em produção entre 12 e 15 meses antes da realização da pesquisa. Em inteligência artificial, esse intervalo representa várias gerações tecnológicas.
Isso ajuda a explicar por que alguns indicadores ainda parecem modestos diante das demonstrações mais avançadas apresentadas recentemente pelo mercado.
A expectativa do executivo é que os próximos estudos capturem um salto significativo na qualidade das experiências digitais oferecidas pelos bancos.
Busca inteligente e personalização ainda são desafios
O levantamento identificou oportunidades importantes na forma como as instituições utilizam inteligência artificial para apoiar clientes. Apenas quatro bancos avaliados conseguiram oferecer mecanismos de busca semântica eficientes dentro de seus aplicativos.
Da mesma forma, somente cinco instituições apresentaram experiências próximas ao conceito de consultoria financeira digital personalizada.
Os números mostram que a hiperpersonalização, frequentemente apontada como uma das grandes promessas da IA, ainda está longe de se tornar realidade para grande parte dos consumidores. Para Rafael, esse é um dos campos mais promissores para evolução nos próximos anos.
Segurança entra em uma nova corrida tecnológica
Se a inteligência artificial cria novas oportunidades para o setor financeiro, ela também amplia os riscos.
Durante a apresentação, Rafael destacou que fraudadores e grupos criminosos passaram a utilizar IA para automatizar ataques, desenvolver códigos maliciosos e criar deepfakes cada vez mais sofisticados. A consequência é uma escalada tecnológica que exige respostas igualmente avançadas.
"O uso de inteligência artificial para o mal existe. Por isso acreditamos que a melhor forma de combater ataques feitos com inteligência artificial é utilizar inteligência artificial", explica.
Segundo o executivo, o futuro da segurança financeira dependerá cada vez mais de modelos capazes de detectar vulnerabilidades, antecipar ameaças e responder automaticamente a comportamentos suspeitos.
A próxima onda de inovação chegará ao cliente final
Embora boa parte dos investimentos atuais esteja concentrada em produtividade interna e eficiência operacional, Rafael acredita que a próxima fase da transformação será percebida diretamente pelos consumidores.
Hoje, muitas instituições já utilizam IA nos bastidores para análise de dados, automação de processos e suporte às equipes. O próximo passo será levar essas capacidades para a interface dos aplicativos bancários.
"A grande mudança será quando essas tecnologias começarem a aparecer na tela do cliente", comenta o executivo.
Assistentes mais inteligentes, interações por voz, experiências multimodais e agentes capazes de executar tarefas complexas devem se tornar cada vez mais comuns nos próximos anos.
Brasil se consolida como referência global em inovação financeira
Para Rafael, o cenário brasileiro oferece condições únicas para acelerar essa transformação. A combinação entre forte atuação regulatória, competição intensa, maturidade digital e um mercado de dimensões continentais colocou o país entre os ambientes mais avançados do mundo em serviços financeiros.
Na visão do executivo, essa combinação continuará impulsionando a evolução do setor e deve fazer com que os próximos anos sejam marcados por uma mudança profunda na forma como os consumidores interagem com os bancos.
A mensagem central do FinFacts 2026 é clara: a corrida pela transformação digital já não é mais sobre digitalizar processos. Ela passa agora pela capacidade de transformar inteligência artificial, dados e automação em experiências mais inteligentes, seguras e relevantes para os clientes.
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há 1 hora
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