Infraestrutura crítica é soberania: uma oportunidade estratégica para o Brasil

há 21 horas 3

O Brasil projetou sua imagem no mundo combinando talento, cultura e capacidade de realização. De Pelé a Ronaldinho Gaúcho, da música à presença crescente em mercados globais, construímos uma narrativa de relevância e influência. Mas, por trás desse soft power, existe uma base muito mais concreta e cada vez mais estratégica: a infraestrutura que sustenta nossa economia.

Portos, dutos, terminais e corredores logísticos são o que, na prática, permitem que o Brasil exerça esse protagonismo. E por trás deles existe uma camada tecnológica essencial, formada por sistemas industriais como SCADA, PLCs e redes de automação, que operam silenciosamente o fluxo de grãos, energia e produtos. À medida que essa infraestrutura se digitaliza, cresce também a oportunidade de fortalecê-la como parte central de uma agenda de competitividade, resiliência e soberania.

Vivendo há mais de duas décadas nos Estados Unidos, chama atenção como esse tema vem sendo incorporado de forma mais ampla ao debate estratégico. Infraestruturas como redes elétricas, oleodutos e portos são tratadas como elementos críticos para a continuidade do país, não apenas como ativos operacionais. No Brasil, esse olhar vem evoluindo, especialmente com avanços regulatórios e maior atenção à segurança cibernética, refletindo um movimento natural de amadurecimento diante de um cenário global mais complexo.

Ataques sem explosão

Alguns episódios recentes ajudam a dar contorno mais concreto a essa discussão. Em maio de 2024, o Porto de São Francisco do Sul sofreu um ataque cibernético que levou à paralisação temporária de sistemas relevantes, afetando operações e evidenciando como a indisponibilidade digital pode gerar impacto imediato. Casos como esse dialogam com outros incidentes no país, como o ataque ao sistema do Superior Tribunal de Justiça, que interrompeu atividades por dias, e a indisponibilidade do ConectaSUS, que afetou serviços de saúde e acesso a informações críticas durante a pandemia de COVID-19. Mais recentemente, episódios envolvendo instituições científicas e dados sensíveis reforçam um padrão: interrupções digitais, mesmo sem danos físicos, têm efeitos reais sobre operação, confiança e estabilidade institucional.

Em um ambiente cada vez mais conectado, a interrupção de sistemas industriais pode produzir efeitos comparáveis aos de um conflito — sem que seja necessário disparar um único tiro.

Esse tipo de ocorrência tem uma característica importante. É silencioso, escalável e muitas vezes difícil de atribuir com precisão, mas ainda assim capaz de gerar pressão econômica e institucional relevante. Em um ambiente cada vez mais conectado, a proteção de sistemas industriais deixa de ser apenas uma preocupação técnica e passa a integrar uma visão mais ampla de resiliência.

O Brasil já construiu uma base importante nesse campo, com avanços regulatórios e maior conscientização. Um próximo passo possível é aprofundar o reconhecimento de que parte dessa infraestrutura industrial também desempenha um papel estratégico. Isso não implica mudanças estruturais no modelo, mas sim uma evolução na forma de integrar segurança, operação e competitividade, fortalecendo padrões de proteção, mecanismos de resposta e a própria confiabilidade do ambiente de negócios.

Há também um elemento central que merece mais atenção: as pessoas. Engenheiros, técnicos e operadores brasileiros têm longa experiência em manter sistemas complexos funcionando em condições desafiadoras, muitas vezes atuando diretamente na identificação e resolução de falhas. Com o avanço da digitalização, esse conhecimento ganha ainda mais relevância, posicionando esses profissionais como parte essencial da resiliência operacional do país.

Os desafios técnicos são conhecidos por quem atua no setor. Redes industriais ainda pouco segmentadas, acessos remotos amplos e integração crescente entre sistemas operacionais e corporativos criam pontos de atenção que, se bem endereçados, representam não apenas mitigação de risco, mas também ganhos de eficiência e modernização. No cenário atual, aumentar a resiliência é também aumentar a confiança, interna e externamente.

O Brasil reúne hoje condições consistentes para avançar nessa agenda. A combinação de relevância global, capacidade técnica e evolução institucional cria uma base sólida para consolidar uma visão mais integrada entre infraestrutura, tecnologia e estratégia de país. Mais do que responder a riscos, trata-se de capturar uma oportunidade: fortalecer os sistemas que sustentam o presente e viabilizam o futuro.

Cristiana Kittner, Gerente Sênior de Pesquisa de Ameaças, Proofpoint.