A inteligência artificial talvez seja um dos temas mais fascinantes e, ao mesmo tempo, inquietantes do ambiente corporativo atual. Todos os dias surge um novo termo, uma nova ferramenta, uma nova promessa de transformação. E eu entendo a ansiedade que isso gera. Conversando com outros executivos, percebo que muita gente ainda tenta responder à mesma pergunta: afinal, como extrair resultado real da IA sem transformar tudo em um movimento atropelado, desconectado da realidade do negócio? O que tenho aprendido nessa jornada é que muitas empresas ainda tentam começar pelo fim. Querem ter produtos baseados em inteligência artificial, anunciar iniciativas ao mercado e acelerar entregas, mas sem antes construir uma base cultural sólida que sustente essa transformação no longo prazo.
Na minha visão, o ponto de partida raramente deveria ser a tecnologia isoladamente. O início dessa jornada quase sempre está na cultura e na capacitação das pessoas. A inteligência artificial é meio, não fim. E essa mudança de perspectiva altera completamente a forma como uma empresa constrói inovação. Quando a IA passa a ser tratada apenas como um objetivo final, existe uma tendência de atropelar processos, gerar frustrações internas e criar movimentos artificiais que não se sustentam na rotina da operação. Por outro lado, quando ela é incorporada ao dia a dia das equipes, aos fluxos de trabalho e à mentalidade da liderança, os resultados começam a aparecer de maneira muito mais natural e consistente.
Em um artigo anterior desta coluna, compartilhei um pouco sobre a criação da IA Academy, nossa escola interna dedicada ao ensino de Inteligência Artificial que foca em democratizar o acesso dentro da empresa. A lógica era simples: não faria sentido concentrar conhecimento técnico em poucas pessoas enquanto o restante da operação continuasse trabalhando exatamente da mesma forma. Se a inteligência artificial realmente tem potencial para transformar negócios, ela precisa estar acessível para diferentes áreas, independentemente do nível técnico ou da função de cada profissional. Caso contrário, a empresa cria apenas pequenos núcleos de inovação isolados, sem gerar transformação cultural de fato.
Esse processo também exige envolvimento genuíno da liderança. Passando longe de ser um expert no assunto, eu mesmo me propus a começar do zero: estudei o básico de linguagem de programação e IA para entender melhor os impactos práticos da tecnologia no negócio. O objetivo, obviamente, não era me tornar fluente em nenhuma linguagem, mas exercer na plenitude um dos nossos valores — Liderança pelo exemplo. Queria mostrar que, se eu conseguia dar esse primeiro passo, qualquer um na empresa também poderia Faço questão de compartilhar isso porque existe uma percepção equivocada de que basta contratar especialistas ou montar um time técnico forte. Claro que isso é importante, mas não suficiente. Para uma cultura AI First sair do discurso, fundadores, gestores e executivos também precisam mergulhar no tema, testar ferramentas, aprender novas possibilidades e compreender as limitações da tecnologia. Ninguém lidera uma transformação que não está disposto a viver na prática.
Quando a inteligência artificial passa a ocupar um espaço central na cultura da empresa, o efeito começa a se espalhar naturalmente para todas as áreas. Atendimento, produto, operação, marketing, financeiro. Aos poucos, surgem novas formas de trabalhar, novos fluxos, novos processos e, inevitavelmente, novas soluções. É justamente nesse ponto que vejo muitas empresas se confundirem.
Hoje, temos diferentes produtos e soluções proprietárias construídos a partir dessa lógica. Eles vão desde uma plataforma de gestão de agentes (K+), passando por uma plataforma para acelerar o processo de marketing digital através de agentes (Atlas), até chegarem em agentes que atuam na conciliação dos nossos processos (Concil_IA). Mas gosto de reforçar que esses produtos não nasceram de uma busca desesperada por "ter IA". Eles são reflexo de uma empresa inteira aprendendo a trabalhar com inteligência artificial no dia a dia. E talvez esse seja um dos principais aprendizados dessa trajetória: quando a IA deixa de ser apenas um projeto paralelo e passa a integrar verdadeiramente o core da operação, torna-se praticamente impossível impedir o surgimento de novas soluções, melhorias de processo e oportunidades de inovação.
Durante muito tempo, discutimos inteligência artificial como substituição. Agora, acredito que estamos entrando em uma fase mais madura dessa conversa: a da amplificação. Tenho repetido internamente uma equação que resume bastante minha visão sobre o tema: inteligência humana + inteligência artificial = inteligência exponencial. A IA não elimina repertório humano, sensibilidade ou pensamento crítico. Ela potencializa capacidades, amplia velocidade analítica e libera tempo operacional para que pessoas consigam pensar melhor, criar melhor e decidir melhor. E isso talvez seja o aspecto mais interessante dessa transformação.
Não é a primeira vez, e provavelmente não será a última, que compartilho com vocês, leitores desta coluna, a visão de que tecnologia sem contexto humano dificilmente constrói relações sustentáveis. No fim do dia, talvez o maior erro seja enxergar inteligência artificial apenas como ferramenta de eficiência ou vitrine de inovação. Para mim, ela é sobretudo uma ferramenta de desenvolvimento humano e cultural. E quando essa chave vira dentro de uma empresa, os produtos, os ganhos de produtividade e as novas soluções deixam de ser esforço. Passam a ser consequência.
Anderson Silva, COO do Klubi.
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