Interfaces invisíveis são futuro da tecnologia de consumo, aponta NTT Data

há 1 mês 28
NTT DataEli Rodrigues e Eduardo Armelin (da esq. para dir.). Foto: Divulgação

A disputa pela atenção humana, que moldou a Internet na última década, está entrando em colapso, segundo a NTT Data, empresa global de tecnologia. O modelo que transformou feeds, telas e notificações em um campo de batalha comercial dá sinais de esgotamento.

Ao mesmo tempo, uma nova revolução se aproxima: interfaces invisíveis, assistentes autônomos, robôs, realidade mista e até conexões diretas entre cérebro e computador devem redefinir como humanos e máquinas se relacionam. As mudanças previstas para os próximos três anos podem mexer com negócios, hábitos sociais e princípios éticos básicos.

Economia da atenção

O ecossistema digital que tornou TikTok, Instagram e YouTube centrais na vida moderna se baseia em um princípio simples: capturar segundos da atenção do usuário. Esse modelo, porém, tornou-se insustentável.

O conteúdo longo perdeu espaço. Narrativas aprofundadas foram substituídas por vídeos de 15 a 60 segundos. O que não cabe em um Reels "praticamente não existe", como destacou o head de digital technology da NTT Data, Evandro Armelin, durante evento promovido pela companhia em São Paulo na última quinta-feira, 4.

Em paralelo, surgiram algoritmos comparáveis a "máquinas de mineração". A atenção é tratada como um recurso geológico, escavado, explorado e disputado a qualquer custo. O resultado é o content shock: a produção explosiva de conteúdo torna cada segundo de atenção mais caro.

Outro sintoma é a substituição da vivência real pelo registro. A lógica de que "se não foi postado, não aconteceu" altera comportamentos sociais, afetando desde viagens até reuniões de trabalho.

Na visão dos especialistas da companhia, empresas tradicionais já estão percebendo que tentar replicar essa lógica é um erro. Bancos e seguradoras que inserem "stories" em seus apps descobrem que o comportamento do usuário em plataformas de entretenimento não se traduz para ambientes transacionais.

O futuro e as interfaces invisíveis

Para a NTT, a interação digital está saindo das telas e se tornando fluida, multimodal e cada vez mais imperceptível.

A nova geração de interfaces combina voz, imagem, vídeo e texto em interações naturais, sem jornadas rígidas de navegação. Exemplo disso é um conceito de e-commerce, apresentado durante o evento da companhia, no qual o usuário simplesmente mostra um produto para a câmera, recebe sugestões do que poderia servir para ele e adiciona o produto no carrinho.

A hiperpersonalização está avançando para o ponto em que campanhas de marketing podem ser criadas cliente por cliente. Mas a falta de integração entre dados ainda é um obstáculo.

Para contornar esse problema, surge um novo ator: o cliente sintético. Modelos de IA construídos com base em entrevistas reais simulam comportamentos humanos com acurácia acima de 80%. No futuro, segundo eles, cada pessoa poderá ter seu próprio agente representando seus interesses em interações máquina-a-máquina.

Interfaces geradas por IA e o fim do SEO tradicional

O head de digital experience da NTT Data, Eli Rodrigues, destacou também que o design tradicional (telas, fluxos, wireframes) está sendo substituído por interfaces geradas automaticamente por IA. Designers passam a ser arquitetos de regras, não criadores de telas.

Essa nova lógica muda até como empresas são encontradas: o SEO dá lugar ao GEO (Generative Engine Optimization). O conteúdo deixa de ser escrito para pessoas e passa a ser produzido para agentes de IA, que farão a curadoria final das informações.

Realidade mista

Diferente do metaverso, que propunha um mundo digital alternativo, a realidade mista insere informações digitais no espaço físico. Alguns exemplos citados como possíveis de popularização são: ver dados nutricionais pairando sobre um produto no supermercado, assistir a um chef holográfico ensinando uma receita na cozinha, participar de reuniões com hologramas sentados à mesa.

A evolução prevista vai dos óculos avançados (ainda muito robustos e utilizados em aplicações específicas) para lentes de contato, tornando a interface literalmente invisível.

Nova geração de dispositivos e agentes

As interfaces invisíveis virão acompanhadas de uma nova camada de automação, de acordo com a NTT. Um dos exemplos é o comércio máquina-a-máquina. Comandos como "compre meu café" serão suficientes para que agentes de IA negociem autonomamente com fornecedores, escolham o melhor preço e finalizem a compra sem intervenção humana.

Além disso, robôs com preço comparável ao de um carro podem passar a se popularizar. Treinados por imitação ou por milhões de ciclos de tentativa e erro, eles prometem automatizar atividades físicas, inclusive de cuidados pessoais. No entanto, esse tipo de tecnologia abre uma enorme gama de dilemas éticos. Tomando como exemplo um robô treinado para cuidados, se um paciente recusa um remédio vital, o robô deve forçá-lo ou respeitar sua autonomia?

As interfaces cérebro-computador também já têm registros de casos de uso. A Neuralink, por exemplo, já permite que pessoas tetraplégicas controlem computadores com o pensamento. Uma nova fase, segundo Armelin, pode ir além de restaurar capacidades, mas aumentá-las.

A interface definitiva não exige telas, nem voz, nem gestos. Bastaria pensar "preciso de café" para que um agente acione uma cadeia completa de ações M2M. Uma das grandes questões é: para onde iriam esses dados?

A corrida por interfaces invisíveis não é apenas tecnológica, mas também, novamente, ética e moral. Quem responde por falhas de robôs ou carros autônomos? Como proteger dados quando a interface lê intenções e emoções? Como evitar vieses em sistemas que interpretam não só palavras, mas expressões, postura e até sentimentos?

Desafios para os três próximos anos

Os próximos três anos exigirão uma adaptação bastante dinâmica, prevê a NTT Data. As empresas terão de responder rapidamente a transformações estruturais.

Como elas aparecerão para os grandes modelos de linguagem (LLMs)? Estratégias precisam ser adaptadas ao GEO. Como criarão experiências conversacionais que substituam apps tradicionais? Como unificar dados para hiperpersonalização? Como mapear a aceitação de clientes para essas novas interfaces?

Para além dos desafios de conectividade significativa, vale destacar que o consumo da IA cresce além da capacidade global atual e os data centers demandam investimentos massivos. Essa evolução exigirá todo um esforço não só de desenvolvimento tecnológico, mas também de consolidação de infraestrutura e o emprego de recursos naturais.

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