Resiliência de rede 2G foi decisiva em enchentes no Rio Grande do Sul

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Enchentes Rio Grande do SulFoto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) concluiu que redes legadas de telefonia móvel, em especial o 2G, foram decisivas para manter a comunicação móvel em Porto Alegre durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024.

O material (tema de uma tese de mestrado) foi apresentado nesta semana, durante o 40ª Grupo de Trabalho em Segurança de Redes, evento realizado pelo NIC.br e CGI.br em meio à 15ª Semana de Infraestrutura da Internet no Brasil, que ocorre em São Paulo. 

Coorientador da tese e professor da UFRGS, Leandro Bertholdo destacou que a telefonia móvel durante o evento extremo ficou dependente das redes 2G e 3G em muitas localidades gaúchas isoladas, suportando comunicações restritas ao WhatsApp e SMS. "Quem sustentou a área alagada durante o evento foi a rede 2G e 3G", disse.

Neste sentido, os pesquisadores avaliaram qual seria o impacto na cobertura em caso de ausência das redes antigas (em especial o 2G), que devem ser descontinuadas a partir de 2028. A análise usou dados da Anatel, informações hidrológicas da UFRGS e registros operacionais cedidos por duas operadoras móveis.  

A análise teve como foco Porto Alegre, compreendendo cerca de 600 estações rádio base (ERBs), ou 67% das estruturas na capital. Em uma das teles, estimativas de cobertura indicaram que a rede 2G manteve maior alcance na comparação com o 5G durante a primeira semana do mês de maio, considerada a fase mais crítica da enchente em Porto Alegre.

Resiliência móvel em enchentes reacende debate sobre fim do 2G e desenho do 5GAntenas 2G têm área de cobertura estimada maior do que as estações 5G em 7 de maio de 2024, fase mais crítica do alagamento na cidade de Porto Alegre. Imagem: Reprodução/UFRGS

Na outra operadora, a análise foi distinta: foram comparadas falhas nas redes 2G e 5G durante a segunda semana de maio de 2024. No momento da análise, 25% dos mais de 300 sites da empresa estavam impactados como consequência das chuvas, com afetação levemente menor no 2G (22%) do que no 5G (25,5%).

Segundo Bertholdo, os resultados validam a percepção prática sobre a importância das redes 2G e 3G no momento da calamidade climática. O levantamento também seria o primeiro a avaliar um período tão longo de interrupção do serviços em situações extremas. Confira aqui um resumo da tese, de autoria do pesquisador Daniel Meyer.

Como manter a resiliência

Os pesquisadores da UFRGS reconhecem que o ocaso das redes 2G e 3G é inevitável, por fatores como baixa eficiência espectral, custos operacionais e compatibilidade limitada entre dispositivos modernos. O ponto, segundo Leandro Bertholdo, seria como incorporar a mesma característica de resiliência em novas gerações da tecnologia, como o 5G.

"Uma das coisas que notamos é o uso estratégico das frequências baixas", disse Bertholdo, chamando atenção para o 700 MHz, bastante usado no 4G brasileiro. Faixas como esta possibilitam um maior alcance de cobertura na comparação com o espectro mais alto – como o 3,5 GHz, hoje a principal faixa do 5G.

O Brasil, contudo, estaria atrasado no uso do 700 MHz para o 5G, afirma o pesquisador. A faixa chegou a ser vendida em 2021, mas foi devolvida, com novo leilão previsto para 2026. "O problema é que essa licitação está bastante fragmentada quando comparada, por exemplo, com a Europa e os Estados Unidos", afirmou Bertholdo. 

Ele aponta que a divisão planejada para espectro pode comprometer o uso efetivo da faixa pelas operadoras. "A impressão é que o modelo atual tornará inviável para as operadoras atuarem nessa frequência e elas serão usadas como fallback", servindo como recurso alternativo à camada principal da rede 5G.

"Ela não vai ser instalada na maioria das antenas e vai ser mais usada em áreas rurais distantes do que na área densamente povoada", ilustrou Bertholdo, sinalizando risco de novos eventos extremos causarem apagão das comunicações em cidades como Porto Alegre, sem a presença das redes legadas.

Na primeira rodada do leilão previsto pela Anatel, a capacidade de espectro em 700 MHz a ser disponibilizada será de 10+10 MHz nas subfaixas de 708 MHz a 718 MHz e de 763 MHz a 773 MHz. Nas rodadas seguintes, em caso de blocos vagos, eles seriam divididos em tranches de 5+5 MHz.

"Temos que garantir que características de resiliência sejam incorporadas para cenários extremos, com uso estratégico de frequências baixas como 700 MHz", resumiu o pesquisador da UFRGS, defendendo ainda que "a licitação conduzida pela Anatel merece uma atenção especial e, talvez, precise ser repensada".

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