O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizou uma possível intervenção regulatória na aquisição proposta pela Netflix dos ativos de estúdio e streaming da Warner Bros. Discovery (WBD).
Em um evento em Washington no último domingo, 7, Trump indicou que teria influência pessoal na aprovação do negócio, declarando que o acordo "poderia ser um problema" devido à fatia de mercado que a empresa combinada teria no streaming. Ele concluiu que o processo "tem que passar por um processo e veremos o que acontece". O anúncio veio após Trump confirmar que havia se reunido recentemente com o co-CEO da Netflix, Ted Sarandos.
O aviso do presidente ocorre em um momento de acirramento na disputa pela WBD. A Netflix havia chegado a um acordo definitivo na sexta-feira passada, 5 de dezembro, para comprar a divisão Studios & Streaming da WBD, que inclui a HBO, HBO Max e seus estúdios de cinema e televisão, por um valor de US$ 82,7 bilhões, o equivalente a US$27,75 por ação em uma combinação de dinheiro e ações.
No entanto, a Paramount Skydance lançou uma oferta pública de aquisição hostil para comprar a WBD inteira, oferecendo US$ 108,4 bilhões em valor, ou US$ 30 por ação, integralmente em dinheiro. A proposta da Paramount Skydance inclui a totalidade da empresa, abrangendo não apenas os ativos de estúdio e streaming/premium (como HBO e Cinemax), mas também a divisão de canais lineares (Global Networks), como a CNN, TNT e os canais Discovery, que seriam separados no acordo da Netflix.
A oferta da Paramount Skydance foi dirigida diretamente aos acionistas, contornando o conselho da WBD, que havia recomendado o negócio com a Netflix.
Análise
O escrutínio regulatório sobre a aquisição da Netflix e a intervenção pública do presidente Trump adicionam uma dimensão política direta ao debate antitruste.
O histórico de Trump demonstra que a interferência regulatória em grandes fusões de mídia pode ter motivações políticas. O presidente já se opôs publicamente à fusão entre a AT&T e a Time Warner, proprietária da CNN, um canal que ele criticava frequentemente. Naquela ocasião, o Departamento de Justiça (DoJ) moveu ações contra a fusão, que era vertical (com atividades distintas no mesmo mercado), apesar de tais fusões serem historicamente aprovadas. O caso tomou um rumo político.
O escrutínio atual sobre o acordo Netflix-Warner Bros., que inevitavelmente passará pela análise do DoJ, reflete a possibilidade de que o processo seja influenciado pela Casa Branca, que já se mostrou disposta a intervir.
Em contraste com o escrutínio sinalizado para a Netflix, a concorrente Paramount Skydance, liderada por David Ellison, e financiada por seu pai, Larry Ellison (cofundador da Oracle), possui um alinhamento político com o governo republicano. Larry Ellison tem proximidade com o presidente Trump, tendo aparecido com ele em anúncios de projetos estratégicos de inteligência artificial para os EUA.
O braço de notícias da Paramount, a CBS News, já teve questões resolvidas com o governo, como o pagamento de uma multa para encerrar um processo de Trump. O alinhamento do principal suporte financeiro da Paramount Skydance poderia lhe conferir uma vantagem no escrutínio regulatório.
David Ellison, inclusive, manifestou interesse em realizar mudanças na CNN caso a Paramount adquirisse a WBD. A oferta hostil da Paramount Skydance, que resultaria em uma nova empresa capaz de desafiar o domínio da Netflix, poderia ser vista de forma mais favorável pelas autoridades americanas do que o reforço da já líder Netflix.
Cultura de Conteúdo
A Netflix tem uma estratégia de produção global que se concentra em diversidade cultural e representatividade. A plataforma investe em produções locais, inclusive no Brasil, e tem impulsionado a descoberta de culturas e países diferentes, com produções fora dos EUA tornando-se fenômenos globais. A diversidade de conteúdo abrange questões sociais como gênero, raça e classe. A empresa afirma ter uma responsabilidade de promover a igualdade de gênero e investe em tramas com protagonistas femininas fortes.
Essa abordagem de conteúdo global e diversificado pode ser vista com cautela por uma administração que prioriza a estratégia "America First" e que é muito mais conservadora em questões de gênero, raça e classe.
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há 1 mês
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