Capacitação e equipamentos: os próximos desafios da digitalização das escolas

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Debate sobre Tranformação Digital na Sala de Aula, durante o evento Educação Conectada 2026. Foto: TELETIME

Um dos grandes desafios que se colocam para educadores, gestores escolares e formuladores de políticas públicas a partir do momento em que as escolas se tornam conectadas e passam a utilizar ferramentas de ensino e gestão digitais é o processo de capacitação e formação de profissionais que utilizarão estas tecnologias. Este aspecto é considerado crucial não apenas para que a transformação digital do ensino seja completa mas para que alunos tenham o benefício pleno do processo de digitalização e, futuramente, também se tornem profissionais capacitados para o uso da tecnologia.

Este foi um dos pontos levantados no debate sobre a transformação digital em sala de aula, promovido no Seminário Educação Conectada, realizado nesta terça, 26, em Brasília, com organização da TELETIME.

Hoje, segundo os especialistas, o processo de digitalização da educação pública está acelerado e em alguns casos bastante completo. É o caso do Paraná, onde 100% das escolas públicas têm acesso à Internet. Segundo Lorena Pantaleão, coordenadora de educação digital da Secretaria de Educação do Paraná, há em média 2,7 estudantes para cada computador nas escolas do Estado, mas ainda há um desafio de preparar educadores e alunos para novos desafios que estão batendo à porta, como IA.

Para garantir o uso efetivo da tecnologia, o Paraná adotou uma estratégia de "multiplicadores" ou "embaixadores". São professores de sala de aula que atuam nas regionais, oferecendo formação e apoio in loco aos colegas, inclusive acompanhando aulas para demonstrar a intencionalidade pedagógica e auxiliar em questões técnicas.

Uso e conhecimento

Segundo Rodrigo Brandão, pesquisador do NIC.Br, 43% dos professores do ensino fundamental e do ensino médio já utilizaram IA nas suas atividades. Mas só 19% dos estudantes relatam que já conversaram com os professores, por exemplo, sobre como usar a IA nas atividades de ensino. "E só 33% tiveram algum tipo de orientação de como é que eles podem fazer checagem de informações erradas".

Lia Glaz, presidente da Fundação Telefônica Vivo, destaca que em 2023 "apenas dois a cada dez professores tinham as competências digitais adequadas" e que este número está melhorando, mas o processo de formação ainda precisa de um esforço de formação mais amplo.

Lorena Pantaleão enfatizou que a transformação digital é "uma construção coletiva", e valorizou a troca de experiências com o terceiro setor, governo federal e outras secretarias. Ela vê a tecnologia como uma oportunidade para "repensar algumas práticas dentro do cenário educacional e repensar o uso de dados".

Para Thaís Sanches Cardoso, consultora em mídias digitais e políticas educacionais do Ministério da Educação, lembrou da importância de haver uma intencionalidade nas políticas públicas, e que a adoção de tecnologias em sala de aula precisa ter um propósito, para que isso se reflita nos níveis de aprendizado. Segundo ela, o MEC trabalha, nesse momento, justamente em um plano de transição para a obrigatoriedade de educação digital e midiática previstas no Plano Nacional de Educação. Já existe uma ferramenta de diagnóstico de capacitação de docentes, para medir o nível de domínio sobre tecnologias digitais.

Segundo ela, o Ministério da Educação está trabalhando agora na construção de um marco teórico e uma matriz de competências digitais para os estudantes, visando definir indicadores que permitam monitorar o avanço da educação digital: "O Plano Nacional da Educação, ele diz que 80% dos estudantes precisam ter um nível adequado, o que significa esse nível adequado? E é isso que vai ser construído agora", diz. Para a consultora do MEC, é fundamental que as escolas promovam uma educação digital e midiática que estimule o pensamento crítico, ético e criativo, garantindo a segurança dos estudantes no ambiente online. 

Coordenação

Lia Glaz defendeu que a transformação digital na educação só é possível com políticas públicas coordenadas, que integrem diferentes aspectos como conectividade, equipamentos, currículo e formação. Além disso, ela sublinhou a necessidade de financiamento adequado e sustentável. "O esforço da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, por exemplo, de dar coerência entre conectividade, equipamento, currículo, formação de professores e recursos digitais, é um esforço que a gente não pode perder". Ela concluiu que "um plano com bons indicadores só funciona se a gente tem dinheiro".

No aspecto dos dispositivos, um dos principais desafios, hoje, é garantir não apenas atas permanentes de contratação que possam dar agilidade de compra para as redes municipais e estaduais, como também neutralidade tecnológica. Milene Pereira, gerente de relações governamentais da Qualcomm, destaca que as tecnologias estão passando por uma profunda transformação, com a incorporação de IA às capacidades de processamento do próprio dispositivo, a adoção de arquiteturas típicas de equipamentos móveis (como processadores ARM) e novas tecnologias de acesso. Para ela, "o dispositivo que vai ser escolhido (para o acesso em sala de aula) é relevante" e poderá ser um fator definidor das aplicações que vão ser incorporadas futuramente ao processo pedagógico. "Não adianta um dispositivo que não consegue fazer inferência de IA se ele estiver fora da tomada", exemplificou.

Milene Pereira aponta que requisitos desatualizados em processos de compras públicas podem limitar o acesso a tecnologias mais avançadas e a competitividade no mercado. "Nós percebemos um certo padrão de repetição dos requisitos, sem muitas atualizações. O que restringiria a participação de máquinas equivalentes, então não é nenhuma questão de trocar o perfil da máquina, é não bloquear, porque aí você traz a possibilidade de ter mais competitividade, e competitividade no mercado ajuda".