Infraestrutura digital dos clubes brasileiros: o que precisa mudar para sustentar o novo futebol

há 2 horas 2

*Por Rafael Brych

O futebol brasileiro está mudando: se antes o desempenho esportivo e a capacidade de investimento em elenco eram chaves para trazer faturamento, hoje a infraestrutura digital que sustenta acesso, dados e monetização passou a ser determinante para a geração de receita e para a eficiência operacional dos clubes.

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A maioria dos clubes brasileiros ainda opera com infraestrutura de TI fragmentada, construída ao longo de anos sem planejamento integrado. Sistemas de bilheteria, plataformas de sócio torcedor, e-commerce de produtos licenciados, controle financeiro e comunicação com o torcedor funcionam, em muitos casos, como ilhas que não conversam entre si.

Essa desconexão gera retrabalho, impede uma visão consolidada do torcedor e limita a capacidade de monetização dos dados que o próprio clube coleta. O contraste com o que já existe no país, ainda que pontualmente, é revelador: alguns clubes já operam com plataformas de CRM integradas em nuvem, unificando marketing, atendimento e dados em uma visão 360 graus do torcedor, enquanto outros importam metodologias de grupos internacionais para integrar performance esportiva, comercial e analítica. São exceções que demonstram o que é possível, mas que também mostram a distância da maioria.

Experiência do torcedor: de ingresso com desconto a ecossistema digital

Na ponta do torcedor, a experiência digital evoluiu de forma desigual. Os clubes que avançaram construíram ecossistemas digitais sofisticados, com plataformas que unificam login, gamificação, loja e conteúdo em um único ambiente, programas de sócio torcedor integrados a sistemas de identidade digital e à operação das arenas, e contas digitais próprias que já ultrapassam a marca de um milhão de usuários e geram milhões de reais em royalties. São modelos que provam a viabilidade da monetização digital no futebol brasileiro, mas que ainda representam iniciativas isoladas dentro de um cenário amplamente fragmentado.

Para alguns clubes, o sócio torcedor deixou de ser apenas ingresso com desconto e virou frente estratégica de monetização. Segundo a Sports Value, em levantamento de maio de 2025, as receitas com programas de sócio-torcedor cresceram 17% no ano e ultrapassaram R$ 850 milhões pela primeira vez na história do futebol brasileiro.

Mas a distância entre os clubes que lideram essa transformação e os que ainda gerenciam suas bases em planilhas ou plataformas terceirizadas sem integração é enorme. Sem uma camada de CRM estruturada, o clube não consegue personalizar ofertas, segmentar comunicação, medir retorno de campanhas ou sequer saber quantos torcedores únicos possui de fato. A experiência digital fragmentada não apenas frustra o torcedor, como desperdiça potencial de receita.

Maturidade dos processos: o preço da informalidade

Essa imaturidade tecnológica reflete um problema mais amplo de gestão. Nos bastidores, a profissionalização acelerada dos clubes nos últimos anos, especialmente entre os que adotaram o modelo de SAF (Sociedade Anônima do Futebol), criado pela Lei 14.193/2021, tornou esses gargalos operacionais mais visíveis. A estrutura exige auditoria independente, publicação de demonstrações financeiras, conselhos de administração e fiscal atuantes.

Isso significa que contratos com atletas, gestão de direitos de imagem, controle de receitas de bilheteria e patrocínios, compliance trabalhista e tributária, tudo isso precisa funcionar com nível de governança corporativa, e não mais com a informalidade que historicamente marcou a administração do futebol brasileiro.

Os clubes que já operam como SAF descobriram que a profissionalização da gestão depende diretamente da digitalização dos processos. Conciliar receitas de transmissão que chegam de múltiplas fontes, tais como TV aberta, streaming, e pay-per-view, gerenciar contratos de patrocínio com dezenas de contrapartidas, monitorar obrigações fiscais sob regime tributário específico e prestar contas a investidores exige sistemas integrados, não planilhas manuais.

Na prática, essa digitalização significa integrar em uma única camada de gestão processos que hoje rodam de forma manual ou desconectada dentro dos próprios clubes. Conciliar receitas que chegam de fontes distintas, como cotas de transmissão, bilheteria, patrocínios, licenciamento de produtos e programas de sócio-torcedor, exige automação financeira e rastreabilidade que planilhas não entregam.

O mesmo vale para a gestão de contratos de atletas, que envolve salários, bonificações por desempenho, cláusulas de direitos de imagem e janelas de transferência com prazos e regulamentações específicas. Clubes que ainda dependem de processos manuais para consolidar essas informações perdem velocidade na tomada de decisão, aumentam o risco de erros em prestações de contas e ficam expostos a inconsistências que uma auditoria independente, obrigatória para as SAFs, rapidamente identifica.

A consultoria PwC, em seu relatório Sports Industry Outlook 2025, aponta que organizações esportivas que adotam inteligência artificial na gestão operacional conseguem reduzir custos em até 40%. Para clubes brasileiros que operam com margens apertadas, frequentemente comprometidas por endividamento histórico, essa eficiência pode até se tornar uma maneira de garantir a sobrevivência financeira.

Segurança da informação: terreno ainda inexplorado pelos clubes

O histórico recente mostra que os clubes brasileiros estão vulneráveis. Em fevereiro passado, por exemplo, o Flamengo teve sua conta oficial no X, com mais de 10 milhões de seguidores, invadida durante uma partida da Recopa Sul-Americana, com publicação de pedidos de Pix fraudulentos. Em 2024, o Palmeiras investigou o vazamento de 618 e-mails internos contendo contratos e informações financeiras de comissão técnica. O Cruzeiro teve site e redes sociais invadidos em episódios distintos entre 2021 e 2024.

São inúmeros os incidentes envolvendo os clubes brasileiros, e embora possam parecer pontuais, revelam um padrão: os clubes são alvos atraentes porque concentram bases massivas de dados pessoais, movimentam volumes financeiros expressivos e, na maioria dos casos, não possuem equipes ou soluções específicas de cibersegurança.

O cenário internacional confirma que o problema não é exclusivo do Brasil, mas ganha proporção à medida que a digitalização avança. Na Europa, o sistema de bilheteria de um dos clubes mais valiosos do continente foi comprometido em 2024, com exposição de dados bancários parciais de torcedores, e a Federação Francesa de Futebol teve dados de 2,2 milhões de membros vazados em novembro de 2025. Grandes eventos esportivos amplificam o risco: na última edição dos Jogos Olímpicos, a agência francesa de cibersegurança (ANSSI) registrou mais de 140 ataques em apenas 17 dias de competição. Para o Brasil, que sediará competições de grande porte nos próximos anos, a construção de uma camada mínima de proteção, que inclua centros de operações de segurança (SOCs) e protocolos de resposta a incidentes é condição essencial para preservar a confiança de torcedores, patrocinadores e investidores.

O futebol brasileiro enfrenta uma transformação que não aparece no placar, mas que define cada vez mais a capacidade dos clubes de gerar receita, reter torcedores e atrair investimento. Conectividade, experiência digital, automação de processos e segurança da informação não são agendas separadas: formam camadas interdependentes de uma mesma infraestrutura.

A rede que conecta o torcedor é a mesma que alimenta o CRM, que depende de processos integrados no backoffice, que por sua vez precisam de proteção cibernética para funcionar com integridade. Os clubes que construírem essa base de forma integrada não estarão apenas se modernizando, estarão criando uma vantagem competitiva que vai muito além do gramado. *Rafael Brych é diretor de Ecossistema da Selbetti.

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