Automação de rede e a era da liberdade intelectual

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Abertura do evento Cisco Live 2026. Foto: Clayton Carmo

Há um senso comum persistente, e profundamente equivocado, de que o Brasil invariavelmente corre atrás do prejuízo no ecossistema de inovação global. Quem acompanha os bastidores do mercado de telecomunicações e infraestrutura digital, no entanto, enxerga uma realidade oposta. A recente edição do Cisco Live, em Las Vegas, realizada no início do mês, deixou claro que o abismo tecnológico entre o Brasil e os mercados maduros simplesmente deixou de existir. Hoje, 100% das inovações globais são aplicadas simultaneamente por aqui.

Clayton CarmoClayton Carmo, diretor de Wholesale da Alloha Fibra. Foto: Divulgação

Não há defasagem. Nosso 5G, por exemplo, opera com eficiência superior à de muitos países desenvolvidos devido ao nosso modelo de implementação de redes. O Brasil também abriga um dos principais pontos de troca de tráfego de internet do planeta e já consolidou o Wi-Fi 6 em sua infraestrutura, mantendo o radar totalmente alinhado aos primeiros movimentos globais do Wi-Fi 7. O divisor de águas, portanto, não é o acesso à tecnologia, mas a capacidade de investimento das empresas em um setor de uso intensivo de capital (CAPEX), desafiado atualmente pelo cenário macroeconômico e pelas altas taxas de juros.

Superada a barreira da infraestrutura básica, a grande virada de chave do mercado não está mais no hardware físico, mas na inteligência de software. É a era dos processos autônomos.

A automação impulsionada pela Inteligência Artificial (IA) está transferindo as intervenções humanas da camada operacional básica para níveis puramente estratégicos. É o que chamamos de "liberdade intelectual". Na prática, isso significa que, enquanto os robôs inteligentes absorvem o atendimento resolutivo e plataformas baseadas em nuvem assumem as configurações de rede que antes exigiam comandos manuais de engenheiros, os talentos humanos ganham espaço para focar na inovação e na experiência do cliente.

Um dado apresentado no Cisco Live 2026 mostra que cada agente individual gera 450% mais dados do que um usuário humano. Esse cenário foi ilustrado em um gráfico comparativo entre o volume de dados gerados por agentes em comparação com o gerado por humanos.

Essa maturidade operacional abre caminhos para a monetização por meio de Serviços de Valor Adicionado (SVA). O mercado corporativo B2B, por exemplo, já entendeu que não basta vender "caixas" e roteadores; o valor real reside em explorar a inteligência sobre as plataformas.

O melhor exemplo dessa transformação está na segurança cibernética. Os Centros de Operações de Segurança (SOC), tradicionalmente reativos e focados em reparos pós-incidente, tornaram-se proativos através da IA. Imagine um cenário no qual o próprio sistema identifica que um cliente expandiu seus pontos de rede sem aviso prévio, criando uma vulnerabilidade. De forma autônoma, a plataforma não apenas detecta a brecha, mas gera e dispara uma proposta comercial de upselling para adequar a proteção. A segurança digital, antes vista como centro de custo, passa a atuar conectada diretamente à área de vendas.

O jogo atual não é sobre adquirir novos equipamentos, mas sobre potencializar o parque tecnológico e as parcerias globais que as empresas já possuem. As companhias brasileiras que dominarem a automação inteligente de processos para extrair eficiência e receita incremental sairão – e já estão – na frente.

Precisamos abandonar o complexo de inferioridade. Nossa capacidade de customização em nuvem e cibersegurança nos coloca em pé de igualdade com qualquer player internacional. A infraestrutura já está posta; a vanguarda agora pertence a quem liderar a autonomia.

*-Sobre o Autor: Clayton Carmo é diretor de Wholesale da Alloha Fibra. As opiniões e informações deste artigo não necessariamente refletem o ponto de vista e a apuração de TELETIME.